15.6.19

A visão de um cego.

"Frequentemente ouvimos dizer, às próprias pessoas com deficiência, que são "portadoras de deficiência" ou "deficientes". Vamos por partes:
1. Eu sou uma pessoa com deficiência. O que me define antes de mais é ser pessoa, não é ser deficiente. A deficiência é um constrangimento social a que estou sujeito por causa da forma como a sociedade se organiza. Eu tenho uma formação deficiente em física quântica, como tenho, no meu caso, uma visão deficiente. Mas não sou deficiente. Sou uma pessoa que, por causa da forma como a sociedade se organiza, fica com deficiência nessa sociedade. Em razão de quê, da minha deficiência? Não, da minha incapacidade. Da minha incapacidade de ver. Como eu serei uma pessoa com deficiência numa reunião de grandes teóricos da física quântica, porque eu tenho uma incapacidade de compreender e de interagir com eles, em razão da minha incapacidade de adquirir conceitos básicos de física quântica. É importante realçar isto, porque é isto que legitima a que a sociedade fale no "colega", no "deficiente", e se esqueça, porque não tem que o repetir, que eu sou, antes de mais, pessoa. Cidadão.
2. Eu não sou portador de deficiência. Sou portador das minhas chaves de casa, portador do meu telemóvel, portador da roupa que visto. Mas a deficiência, eu não a porto comigo, porque não posso escolher se a levo ou se a deixo. Tudo o que eu porto, transporto, eu posso escolher se vai ou se não vai. A deficiência não. Desde logo porque não é minha - minha será, quando muito, a incapacidade de ver, de andar ou de ouvir. A deficiência, essa, resulta da interação entre os factores sociais e do meio que me envolve, e a minha incapacidade - de ver, de andar, de ouvir, de inteligir o que me dizem.
3. Quem me define sou eu. Se a sociedade gosta mais de me chamar "deficiente" ou "portador de deficiência", problema deles. Eu é que decido como quero ser chamado, como quero que se refiram a mim, porque eu é que decido o que é que me define. Eu estou no meu direito de dizer que não quero que me chamem assim. Porque a forma como eu aceito que me chamem é que vai definir a minha identidade. É basicamente a mesma coisa que chamar alguém de "doutor", "professor" ou "engenheiro". Quando chamam a essa pessoa "doutor", "engenheiro", "professor", estão a dar relevo a quê? Ao título académico ou profissional. E esquecem-se do quê? Da pessoa. Do António, que tirou um curso de medicina; da Mafalda, que por acaso é membro da Ordem dos Egenheiros; ou do Fernando, que por seu mérito e opção dá aulas no ensino superior.
4. Radicalismo? Não. Nada sobre nós, sem nós! Se nada sobre as pessoas com deficiência deve ser decidido sem as consultar, isso implica a forma como nos referimos a elas. Se ninguém acha bem que decidam aspectos de vulto na sociedade sem que os próprios membros da sociedade sejam consultados sobre isso, eu também não acho bem que façam isso em relação a mim.


Pronto, era só isto. Não é um texto fofinho, como os da semana das vítimas do cancro ou os da semana da amizade, mas talvez ajude a sensibilizar consciências. Por isso, se concordarem, repassem, mas sobretudo, apliquem!



Rodrigo Santos, autor



A destreza com que Rodrigo Santos desbloqueia o smartphone para “ver” se tem chamadas perdidas, sms por responder ou novos e-mails, deixa qualquer pessoa boquiaberta. /.../

 ...acredita o jurista e presidente do Conselho Fiscal e de Jurisdição da ACAPO. Cego de nascença, Rodrigo Santos, 38 anos, anda sempre acompanhado pelo Babel, um labrador cão-guia, mas já não dispensa o uso das inúmeras apps que, hoje em dia, podem ajudar um cego. “A tecnologia abre-nos um mar de possibilidades, com a sua capacidade de processamento, de interação e de debitar informação em múltiplos formatos, mas pode também funcionar como uma barreira se as aplicações não forem bem desenhadas. Chamar-lhes “botão 1” ou “botão 2” não nos serve de nada.”

Sem comentários:

Enviar um comentário

Conte...

Manuel Carvalho, diretor do Público, partiu a cerviz

A coerência, só por si, não faz parte da lista dos princípios éticos de uma sociedade. Há, no entanto, situações em que ela é fundamental pa...