4.5.18

Aos nossos heróis

Faz hoje dez anos que o Manuel António Pina publicou este belíssimo texto - na forma e no conteúdo.
Toca-me particularmente, porque me catapulta para um tempo que era urgente todos os dias. Eu, ainda a frequentar o liceu (D.Duarte), andei a desfilar balões pintados com palavras de ordem que davam prisão,  andei a distribuir flores pela baixa de Coimbra que davam direito a bastonadas. Não sou saudosista no sentido narcísico, sou-o de um tempo de causas coletivas, de um tempo iniciático que unia jovens de diferentes idades etárias e lhes abria horizontes até aí vedados.
O texto do poeta retrata já o declínio desse tempo.
Há que acreditar na evolução positiva da nossa sociedade, pegar nas palavras de Fernando Pessoa e sacudir-lhes o pó:
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!

"AOS NOSSOS HERÓIS
Éramos jovens e habitávamos um lugar cercado de paredes onde os ecos do longínquo mundo chegavam esparsos e abafados. E, no entanto, o nosso coração pequeno-burguês (des gens de la moyenne como cantava Colette Magny sobre o Dia do Estudante de 1966) estava maduro, pulsante de sentimentos excessivos e de palavras por dizer. De algum modo, Maio de 68 aconteceu dentro do nos­so coração. Era aí que, também nós, nos barricávamos então con­tra a pequenez do nosso tempo e do nosso lugar. E, sim, também nós (conselhistas, anarquistas, guevaristas, trotskistas, enragés de todas as espécies), dentro do coração nos sentíamos, mansamente embora, la pègre e la chienlit.

Os livros, os discos, as revistas, passavam de mão em mão, tra­zidos clandestinamente e, nos cafés, murmurávamos, ansiosos, no­mes de súbito familiares: Rudi Dutschke, Sauvageot, Geismar, Cohn-Bendit (oh, os olhos límpidos de Dany le Rouge enfrentando, numa fotografia de página inteira do Paris Match recebida pelo correio a embrulhar, juntamente com outras folhas de jornal, um presente anódino, a face bruta de um CRS!). Em Paris, a faúlha incendiara toda a pradaria, de Nanterre à Sorbonne, da Place de la République a Denfert-Rochereau, do Jardim do Luxemburgo ao Boulevard Saint Michel, e nós, a mil quilómetros de distância, cer­cados e acossados, ardíamos por dentro.

Amávamos sem regras, escrevíamos poemas, cantávamos can­ções, saíamos à noite para pintar afrontas nas paredes («Abaixo a Guerra Colonial», ou, mudando duas letras, transformando o «Droga = loucura, morte» governamental em «Tropa = loucura, morte») ou lançávamo-nos em correria pelas ruas da Baixa ape­drejando as montras de bancos e dispersando antes da chegada da Polícia. Para nós eram tão risíveis os fatos escuros dos minis­tros como a sisudez operária do PC e dos maoistas.

Explodiríamos desordenadamente um ano depois, em Coim­bra. Contra o poder político e académico, contra a Polícia de Cho­que (Vous êtes reconnaissables/ vous les flics du monde entier/ les mêmes imperméables/ la même mentalité, cantava Dominique Grange na instalação sonora da Associação Académica), contra os controleiros de serviço, distribuindo flores e balões nas ruas, nas faculdades, na Porta Férrea, na Escadaria Monumental ou ati­rando panfletos na noite de S. João e na final da Taça no Estádio Nacional.

Que é feito dos nossos heróis? Corrompidos pela vida, de fato e gravata, ocultando as memórias da juventude como uma doen­ça vergonhosa, é ver agora alguns deles a reescrever comemorativamente a sua própria história e a votar leis de despedimentos no Parlamento. E a pior das humilhações: escutar Cohn-Bendit defendendo o «mercado» e as intervenções militares na Bósnia e no Afeganistão.

Não, não são os revolucionários os cornudos da História, são as Revoluções. Não ensinam melancolicamente os dicionários (aprendemos à nossa custa que é insensato desprezar os dicioná­rios) que Revolução é o movimento de um corpo que, descrevendo uma curva fechada, passa sucessivamente pelos mesmos lugares?"

Manuel António Pina (Notícias Magazine, 04.05.2008)




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