31.5.18

Aquele rododendro

...irá marcar para sempre o ano da tua morte. Andaste comigo à procura do melhor sítio para o plantares. Decidiste-te por aquele espaço coberto de folhedo da macieira, onde apanharia sobretudo o sol da manhã. Era o final de uma manhã quente de Abril e tu, sempre com o teu sorriso doce, ias esventrando a terra à medida que me explicavas que era preciso juntar outra terra e que irias buscá-la e mais tarde virias acabar o trabalho. Não dei por ti. Apenas vi, posteriormente, que à volta do rodô fizeste uma circunferência com cubos de granito por ali esquecidos... Soube há pouco e estou em choque. Abalroado frontalmente, sem apelo nem agravo. Eras da idade do meu filho... Descansa em paz, Roberto. [os pais são donos de uma empresa de jardinagem e há já uns 15 anos que tratam do meu jardim. Vinham sempre os três, em equipa, pai, mãe e filho. Uma tragédia que se abateu sobre esta família...]

25.5.18

Tédio...

Os dias andam numa correria e isto assusta-me. Escreveu o nosso camaleónico poeta:"Tudo o que faço ou medito/Fica sempre pela metade/Querendo, quero o infinito/Fazendo,nada é verdade." É esta espécie de sentimento de culpa que me invade dia após dia. Sinto que nada produzo. Mal leio, eu que devorava livros e me queixava com falta de tempo... Até um Carrė. Não passei das primeiras páginas. Mal escrevo, também. A dispersão é grande e mesmo assim os dias, vertiginosos, passam. Distribuídos por três estantes e em diferentes partes da casa, olho as dezenas e dezenas de livros que me levaram a viajar por espaços imensos e tempos infinitos, dentro e fora de mim. É isso. Vou procurar-me nesse universo.Reler obras que, por certo, poderão voltar a surpreender-me. Eu mudei, mas elas permaneceram, ali, intactas. Agora sim, dar uma volta de 360 graus e voltar ao ponto de partida, ou como escreveu Xavier de Maîstre "Voyage au tour de ma chambre".

17.5.18

Honni soit qui mal y pense

Pergunto-me por que razão, na altura do Festival de Cinema de Cannes, algumas mulheres portuguesas  conhecidas das tv's se "metem" a passear na passadeira vermelha e, se calhar, isto sou eu a pensar, a acenar qual rainha inglesa aos seus súbditos?
Estão lá em nome de quê? De quem? Que terão estas mulheres em comum: Rita Pereira, Pimpinha Jardim, Dolores Aveiro (mãe do CR)? E há mais.
Ou será que se compra um bilhete para pisar a dita passadeira, nos momentos de pausa, como se fosse para andar nos carrinhos de choque?
Ou será que são as revistas "pink" que lhes pagam e as atiram para a ribalta para uns breves momentos de glamour e assim enriquecerem as suas publicações?
Ou haverá mesmo outras justificações para que alguém que se torna desconhecido mal atravesse a fronteira vá parar à passadeira vermelha?
Ora aqui está o link do artigo que me provocou tamanhas reflexões de lana-caprina.

Cristina Ferreira brilha na passadeira vermelha

Ah! Descobri uma explicação.

"O rosto da estação de Queluz de Baixo foi a convite de uma marca de joias e teve a oportunidade de desfilar na passadeira vermelha do tão aclamado evento.

«Os sonhos tornam-se realidade. P.S: As joias são do outro mundo. Deve ser por isso que tenho 3 seguranças sempre atrás de mim», afirmou.

Cheia de brilho, da cabeça aos pés, Cristina Ferreira não coube em si de contente. Para a ocasião, escolheu dois vestidos, completamente diferentes um do outro."

 O mistério mantém-se: e as outras?

15.5.18

PAN demia?

Esta coisa das false news anda a dar-nos cabo da cabeça! Eu, tal como a maioria das pessoas, não gosto de ser enganada e andar por aí a embandeirar em arco a pronunciar-me sobre mentiras, daí que, ultimamente, me ponha a vasculhar as fontes das notícias. Claro que, mesmo assim, narrativas tendenciosas minam espíritos impreparados para todo o tipo de manipulações.
Ao ler o lead desta notícia "PAN quer que animais de médio e grande possam viajar na Carris" deduzi, muito naturalmente, que o Pan propunha um transporte alternativo de animais, isto é,  defendia o ferroviário em detrimento do rodoviário. Curiosa, abri a notícia para saber as razões  e quase me caiu o queixo! Fui certificar-me se a fonte era fidedigna e o logotipo confirmou-me a idoneidade da dita.
Nem sei bem o que dizer, tal é o inusitado, o estrambólico, o alienado da proposta do Pan que continuo a ver-me a flutuar numa dimensão que não consigo identificar.
Ama a sua vaca e gostaria de a levar consigo de férias? 
Não hesite, subscreva e apoie a proposta do Pan!
Não se esqueça de que, a partir de 1 de Junho, pode ir jantar fora e levar a sua vaca de estimação.  Mas, antes, avise -me...





5.5.18

Ė deputado quem quer, é professor quem precisa

O que tem vindo a lume sobre alguns deputados da AR sobre as falcatruas relativas às suas moradas para a obtenção de subsídios de deslocação choca brutalmente com a realidade diária e anual da deslocação de professores por necessidades profissionais. E o que choca, na verdade, já nem é a existência dessas regalias para quem tem funções de governar a res publica, é sobretudo pela trapaça, pelo oportunismo, pela gritante falta de ética na manipulação das moradas das suas residências.     
"São vários os casos de deputados que têm casa própria em Lisboa mas que dão como morada aos serviços do Parlamento outra casa mais distante, beneficiando assim de um subsídio de deslocação mais chorudo." (in Público)

Em contrapartida:
"Todos os anos, milhares de professores mudam de residência ou percorrem centenas de quilómetros, dia a dia, para trabalhar." ( in JN)
Em situações previstas pela lei e que impliquem o pagamento de subsidio de deslocação e, se necessário,  subsídio de alimentação,  aos professores ( correcções de exames nacionais, instituições de estágio, etc), a sua morada terá sempre como referência a da localidade onde se encontra a escola. Assim, aqui é o sistema que obriga a que os professores mintam.
No tempo de Salazar, contaram-me, que os professores primários eram obrigados a assinar um documento a testar que não viviam a mais de 5 km da escola.
Na década de oitenta, fui colocada na escola secundária de Tábua, a 30 km de casa, para fazer estágio e, ao longo de dois anos, deslocava-me de 15 em 15 à Escola Superior de Educação de Coimbra para as sessões teóricas do estágio. Nesse dia, ia de minha casa diretamente para Coimbra, que fica a cerca de 45 km.
 No entanto, como a minha morada "seria" Tábua,  as ajudas de custo cobriam os km entre Tábua - Coimbra - Tábua: 60+60=120 km!
Mas o mais caricato era uma colega minha de estágio que residia em Coimbra e que  apresentava os 120 km de deslocação para pagamento de ajudas de custo, porque oficialmente residia, tal como eu, em Tábua.
Situação completamente esquizofrénica!
Ressalva: desconheço se isto ainda se verifica atualmente.



       

4.5.18

Aos nossos heróis

Faz hoje dez anos que o Manuel António Pina publicou este belíssimo texto - na forma e no conteúdo.
Toca-me particularmente, porque me catapulta para um tempo que era urgente todos os dias. Eu, ainda a frequentar o liceu (D.Duarte), andei a desfilar balões pintados com palavras de ordem que davam prisão,  andei a distribuir flores pela baixa de Coimbra que davam direito a bastonadas. Não sou saudosista no sentido narcísico, sou-o de um tempo de causas coletivas, de um tempo iniciático que unia jovens de diferentes idades etárias e lhes abria horizontes até aí vedados.
O texto do poeta retrata já o declínio desse tempo.
Há que acreditar na evolução positiva da nossa sociedade, pegar nas palavras de Fernando Pessoa e sacudir-lhes o pó:
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!

"AOS NOSSOS HERÓIS
Éramos jovens e habitávamos um lugar cercado de paredes onde os ecos do longínquo mundo chegavam esparsos e abafados. E, no entanto, o nosso coração pequeno-burguês (des gens de la moyenne como cantava Colette Magny sobre o Dia do Estudante de 1966) estava maduro, pulsante de sentimentos excessivos e de palavras por dizer. De algum modo, Maio de 68 aconteceu dentro do nos­so coração. Era aí que, também nós, nos barricávamos então con­tra a pequenez do nosso tempo e do nosso lugar. E, sim, também nós (conselhistas, anarquistas, guevaristas, trotskistas, enragés de todas as espécies), dentro do coração nos sentíamos, mansamente embora, la pègre e la chienlit.

Os livros, os discos, as revistas, passavam de mão em mão, tra­zidos clandestinamente e, nos cafés, murmurávamos, ansiosos, no­mes de súbito familiares: Rudi Dutschke, Sauvageot, Geismar, Cohn-Bendit (oh, os olhos límpidos de Dany le Rouge enfrentando, numa fotografia de página inteira do Paris Match recebida pelo correio a embrulhar, juntamente com outras folhas de jornal, um presente anódino, a face bruta de um CRS!). Em Paris, a faúlha incendiara toda a pradaria, de Nanterre à Sorbonne, da Place de la République a Denfert-Rochereau, do Jardim do Luxemburgo ao Boulevard Saint Michel, e nós, a mil quilómetros de distância, cer­cados e acossados, ardíamos por dentro.

Amávamos sem regras, escrevíamos poemas, cantávamos can­ções, saíamos à noite para pintar afrontas nas paredes («Abaixo a Guerra Colonial», ou, mudando duas letras, transformando o «Droga = loucura, morte» governamental em «Tropa = loucura, morte») ou lançávamo-nos em correria pelas ruas da Baixa ape­drejando as montras de bancos e dispersando antes da chegada da Polícia. Para nós eram tão risíveis os fatos escuros dos minis­tros como a sisudez operária do PC e dos maoistas.

Explodiríamos desordenadamente um ano depois, em Coim­bra. Contra o poder político e académico, contra a Polícia de Cho­que (Vous êtes reconnaissables/ vous les flics du monde entier/ les mêmes imperméables/ la même mentalité, cantava Dominique Grange na instalação sonora da Associação Académica), contra os controleiros de serviço, distribuindo flores e balões nas ruas, nas faculdades, na Porta Férrea, na Escadaria Monumental ou ati­rando panfletos na noite de S. João e na final da Taça no Estádio Nacional.

Que é feito dos nossos heróis? Corrompidos pela vida, de fato e gravata, ocultando as memórias da juventude como uma doen­ça vergonhosa, é ver agora alguns deles a reescrever comemorativamente a sua própria história e a votar leis de despedimentos no Parlamento. E a pior das humilhações: escutar Cohn-Bendit defendendo o «mercado» e as intervenções militares na Bósnia e no Afeganistão.

Não, não são os revolucionários os cornudos da História, são as Revoluções. Não ensinam melancolicamente os dicionários (aprendemos à nossa custa que é insensato desprezar os dicioná­rios) que Revolução é o movimento de um corpo que, descrevendo uma curva fechada, passa sucessivamente pelos mesmos lugares?"

Manuel António Pina (Notícias Magazine, 04.05.2008)




Fogos regados a gasolina

Quando não  se tem cão,  caça-se com gato. E o tempo que não está de feição para atiçar fogos... Nanja por isso! Já o poeta bradava,...