22.4.18

A matança do porco

Cresci a assistir à matança do porco, não propriamente ao abate - quando éramos infantes, eu e os meus primos, íamos brincar para outro lado a mando dos adultos.
Aquele ritual anual tinha data marcada, porque quase todos os familiares matavam o seu porco e tinha de acudir-se a uns e outros, para ajudar na tarefa.
Havia pratos exclusivos desse dia, cujo sabor recordo e que jamais voltarei a provar.
Incrivel como me sinto incapaz de descrever o tal ritual que se seguia, com o porco já aberto e a escorrer, antes de se passar a cozinhar os tais pratos divinais. Sinto-me manietada pelo politicamente correto que, hipocritamente subindo para um tom indignado, nos faz sentir uns seres das cavernas que matamos animais para comer!
Mesmo no século XXI, nas zonas rurais é normal que se crie um porquito que, depois de alimentado pelas "lavagens" do dia, couves e outros vegetais da horta e farelo, seja morto e assim assegure a alimentação da família por largos meses. Tal como se explora  a criação de porcas "parideiras" que contribuem para a economia da casa com a venda dos leitões.
Depois de alguma agressividade legislativa sobre o abate de animais para consumo doméstico - quem não se lembra daquela de ter de ir à junta de freguesia indicar o número de galinhas que tinham e depois ter de lá voltar para informar que tinham comido uma, logo, tinha de ser abatida no rol?  - a nova legislação já é mais adequada às  realidades e necessidades das populações sem que, entretanto, se ignore a observância das condições sanitárias. AQUI

Este preâmbulo serve para introduzir uma cena que se passou ontem, dia 21, e não sei se continua hoje.
Uma aldeia do concelho agendou para estas datas a recriação da matança do porco à maneira antiga, promovendo não só um alegre convívio, como também servindo para angariar umas verbas que tanto jeito fazem às coletividades locais para levarem a efeito atividades de âmbito social.
Segundo os responsáveis pelo evento, todas as normas respeitantes ao abate do animal foram respeitadas, salentando que não havia sequer a morte em direto. Nas redes sociais levantou - se o escarcéu habitual, onde, ora ninguém lê as explicações/ circunstâncias, ora se leem não percebem pevas...atrás de um monitor imagino dezenas e dezenas de pessoas a roerem talos de couve enquanto choram a morte dos animais para alimento dos humanos trogloditas.
Como é bom de entender, a notícia correu célere pelo facebook e logo aí se criou uma página:



Sou obviamente contra a violência contra animais. Mas sou igualmente contra fundamentalismos que, em extremo, chegam a defender que nem para alimentação os animais deviamser abatidos.
A página criada abre com um longo texto, onde leio coisas absolutamente espantosas e que me levam a refletir sobre se é este o mundo para onde caminhamos. Santa paciência! Desculpem lá..."...para que (o porco)  sinta que não está sozinho nos seus últimos momentos"?!?!



Mais tarde, publicaram novo texto:


Faz-me lembrar a grande poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen,que usando a metáfora da vida, escreveu:

"As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas."

Não posso deixar de colar aqui um texto de uma ex-aluna minha, muito jovem ainda e que analisa a situação sob uma forma irónica mas racional. A voz do bom senso.

“Crónica de uma morte anunciada”
Esta situação já é só um tédio...
Por um lado, as alarvidades  de alguns,que até comem carne. Clamam que não é decente matar o porco com uma facada  e divertir-se com isso. Pois claro que não é, e também ninguém disse que era. Aqui não se mata o porco com uma facada, mas essa (não tão) antiga forma de matar suínos não é sinónimo de malvadez ou perversão. Acredito que os avós e até alguns dos pais não eram uns sádicos e mentecaptos, como se caracterizam por aqui os que o fazem com faca! Matar um animal nunca é bonito de ver, mas ainda  hoje se matam (legalmente) os porcos com uma facada direcionada ao coração e, seja qual for o método utilizado, o objetivo nunca foi gozar com a agonia do animal. Se assim fosse, matava-se com canivetes, durava mais! Além disso, lamento informar, os animais que comem não se matam com festinhas nos matadouros.
Por outro lado, os veganos e vegetarianos... Que os que não comem carne critiquem, era de esperar, criticariam morra o porco como morrer. Ainda que ele morresse de ataque cardíaco, diriam que o matámos de susto. Mas roçarem o ridículo de dizerem que ninguém se importou com o que o porco queria, se queria morrer ou não, é de bradar aos céus! Ah, espera aí que vou só ali num instante aplicar um questionário ao porco! É que ainda não aprendi a grunhir, tenho pouco tempo.
Agora até vigílias pelo porco fazem, para que não se sinta sozinho nos momentos finais... bem, é de bom tom velar os familiares!
É caricato como chegam a antropomorfizar os suínos e os bovinos. É pá, lá que se queiram equiparar a uma vaca, isso é convosco, mas cada um fale por si!
O porco já vai morto, “Matança à moda antiga” não é “Matar à moda antiga”, o que aparece no cartaz é o nome de uma tradição e não a descrição literal do evento.  Claro como água."



7 comentários:

  1. Quando os meus pais criaram cabrito, vaca, porco, e os mataram, juntamente com vizinhos, não consegui comer.
    Sabia a sangue.
    Bjs, boa semana

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    1. Sensibidades que devemos respeitar.
      Igualmente uma boa semana, Pedro
      Beijo

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  2. ..."já se anunciava o Natal quando os
    pobres sentiam o cheiro da felicidade. As aldeias acordavam com o grunhir das
    matanças. Ao sobressalto das crianças sobrepunha-se o festim dos mais velhos,
    que se levantavam excitados. Tonéis de vinho novo, acabados de abrir, alegravam
    os magotes que se juntavam à porta de quem matava, enganando o frio com o
    calor do vinho.
    Ainda o porco se aproxima do banco de pedra que será seu cadafalso, já mil
    braços o imobilizam. Que se afastem os mais sensíveis, não vá a pena encolher o
    sangue que sai em golfadas ao golpe certeiro do matador. Os guinchos que
    estremecem as calçadas são música para os ouvidos esfomeados."

    In Ribacoa, cumprimentos

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    1. Retrato autêntico desses outroras em que a fome pairava que nem um abutre.
      Matar para comer. As palavras são pedras, como escreveu Virgílio Ferreira e aqui nenhum eufemismo consegue iludir a sua dureza. Penso que é isto que a sociedade procura, tal como faz noutros domínios(as novilinguas) ou seja, negar a morte de animais como necessidade de assegurar a subsistência humana.
      Desaprovo, obviamente, o prazer do espetáculo do abate, de per si.
      José, li o seu livro e sinto-me em falta porque prometi dar uma opinião que continua pendente.
      Numa próxima oportunidade. Prometo.
      Saudações

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  3. Se o leu, foi o melhor tributo ao autor. Obrigado.

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  4. Por ser jovem e criada na cidade, nunca tive o prazer de acompanhar esses rituais que marcaram a vida dos meus avós e a infância dos meus pais. Ainda assim, revejo-me perfeitamente nestas certeiras palavras! Nem tanto ao mar, nem tanto à terra! Que haja respeito pela vida animal, sempre, que sejam evitadas todas as formas de infligir sofrimento gratuito e desnecessário, sempre... mas que não se caia no exagero estapafúrdio de fazer disto um circo de ofendidos!

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    1. Sim,começo a sentir-me confrontada com situações que quase me roubam a capacidade de discernimento e, pior ainda, as minhas reações.
      Um dos flagelos das sociedades modernas é o fundamentalismo.
      Obrigada pela visita, palavra-padrão.
      :)

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