25.4.18

Omo lava mais branco

"António Reis [militante e dirigente político oposicionista ligado ao PS] tinha­‑me avisado da proximidade do 25 de Abril com alguma precisão. E embora o meu pai fosse dos membros do governo teo­ricamente mais bem informados, percebi, naquele momento, que, de facto, estava muito pouco informado. Penso que ele terá transmitido a informação a Marcello Caetano e que este terá respondido: «Esse Marcelo Nuno só traz más notícias. Isso são coisas do contra.»

Marcelo Rebelo de Sousa em entrevista à Notícias Magazine  de 22/04/2018.

22.4.18

A matança do porco

Cresci a assistir à matança do porco, não propriamente ao abate - quando éramos infantes, eu e os meus primos, íamos brincar para outro lado a mando dos adultos.
Aquele ritual anual tinha data marcada, porque quase todos os familiares matavam o seu porco e tinha de acudir-se a uns e outros, para ajudar na tarefa.
Havia pratos exclusivos desse dia, cujo sabor recordo e que jamais voltarei a provar.
Incrivel como me sinto incapaz de descrever o tal ritual que se seguia, com o porco já aberto e a escorrer, antes de se passar a cozinhar os tais pratos divinais. Sinto-me manietada pelo politicamente correto que, hipocritamente subindo para um tom indignado, nos faz sentir uns seres das cavernas que matamos animais para comer!
Mesmo no século XXI, nas zonas rurais é normal que se crie um porquito que, depois de alimentado pelas "lavagens" do dia, couves e outros vegetais da horta e farelo, seja morto e assim assegure a alimentação da família por largos meses. Tal como se explora  a criação de porcas "parideiras" que contribuem para a economia da casa com a venda dos leitões.
Depois de alguma agressividade legislativa sobre o abate de animais para consumo doméstico - quem não se lembra daquela de ter de ir à junta de freguesia indicar o número de galinhas que tinham e depois ter de lá voltar para informar que tinham comido uma, logo, tinha de ser abatida no rol?  - a nova legislação já é mais adequada às  realidades e necessidades das populações sem que, entretanto, se ignore a observância das condições sanitárias. AQUI

Este preâmbulo serve para introduzir uma cena que se passou ontem, dia 21, e não sei se continua hoje.
Uma aldeia do concelho agendou para estas datas a recriação da matança do porco à maneira antiga, promovendo não só um alegre convívio, como também servindo para angariar umas verbas que tanto jeito fazem às coletividades locais para levarem a efeito atividades de âmbito social.
Segundo os responsáveis pelo evento, todas as normas respeitantes ao abate do animal foram respeitadas, salentando que não havia sequer a morte em direto. Nas redes sociais levantou - se o escarcéu habitual, onde, ora ninguém lê as explicações/ circunstâncias, ora se leem não percebem pevas...atrás de um monitor imagino dezenas e dezenas de pessoas a roerem talos de couve enquanto choram a morte dos animais para alimento dos humanos trogloditas.
Como é bom de entender, a notícia correu célere pelo facebook e logo aí se criou uma página:



Sou obviamente contra a violência contra animais. Mas sou igualmente contra fundamentalismos que, em extremo, chegam a defender que nem para alimentação os animais deviamser abatidos.
A página criada abre com um longo texto, onde leio coisas absolutamente espantosas e que me levam a refletir sobre se é este o mundo para onde caminhamos. Santa paciência! Desculpem lá..."...para que (o porco)  sinta que não está sozinho nos seus últimos momentos"?!?!



Mais tarde, publicaram novo texto:


Faz-me lembrar a grande poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen,que usando a metáfora da vida, escreveu:

"As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas."

Não posso deixar de colar aqui um texto de uma ex-aluna minha, muito jovem ainda e que analisa a situação sob uma forma irónica mas racional. A voz do bom senso.

“Crónica de uma morte anunciada”
Esta situação já é só um tédio...
Por um lado, as alarvidades  de alguns,que até comem carne. Clamam que não é decente matar o porco com uma facada  e divertir-se com isso. Pois claro que não é, e também ninguém disse que era. Aqui não se mata o porco com uma facada, mas essa (não tão) antiga forma de matar suínos não é sinónimo de malvadez ou perversão. Acredito que os avós e até alguns dos pais não eram uns sádicos e mentecaptos, como se caracterizam por aqui os que o fazem com faca! Matar um animal nunca é bonito de ver, mas ainda  hoje se matam (legalmente) os porcos com uma facada direcionada ao coração e, seja qual for o método utilizado, o objetivo nunca foi gozar com a agonia do animal. Se assim fosse, matava-se com canivetes, durava mais! Além disso, lamento informar, os animais que comem não se matam com festinhas nos matadouros.
Por outro lado, os veganos e vegetarianos... Que os que não comem carne critiquem, era de esperar, criticariam morra o porco como morrer. Ainda que ele morresse de ataque cardíaco, diriam que o matámos de susto. Mas roçarem o ridículo de dizerem que ninguém se importou com o que o porco queria, se queria morrer ou não, é de bradar aos céus! Ah, espera aí que vou só ali num instante aplicar um questionário ao porco! É que ainda não aprendi a grunhir, tenho pouco tempo.
Agora até vigílias pelo porco fazem, para que não se sinta sozinho nos momentos finais... bem, é de bom tom velar os familiares!
É caricato como chegam a antropomorfizar os suínos e os bovinos. É pá, lá que se queiram equiparar a uma vaca, isso é convosco, mas cada um fale por si!
O porco já vai morto, “Matança à moda antiga” não é “Matar à moda antiga”, o que aparece no cartaz é o nome de uma tradição e não a descrição literal do evento.  Claro como água."



19.4.18

A escravidão da absoluta certeza.

Já em tempos, escrevi algures esta conclusão banal: a ignorância é atrevida e enquista a sociedade.
No mundo frenético, urgente, que nos rodeia, a dúvida parece arredia. Normalmente os ignorantes são os assertivos, os tais sempre cheios de certezas.
E nada é mais pernicioso do que viver sentado em verdades absolutas. Uma realidade acabada, redonda não só deve cansar, como apaga a linha do horizonte. Pelo contrário, a dúvida liberta.
As redes sociais estão a contribuir para a ditadura das tais verdades.
E isto veio a propósito da leitura do excerto que se segue sobre a escravidão da absoluta certeza.

«A partir do momento em que formulo uma dúvida, ou mais exactamente: a partir do momento em que sinto necessidade de formular uma, experimento um bem-estar curioso, inquietante. Ser-me-ia de longe mais fácil viver sem qualquer vestígio de crença do que sem qualquer vestígio de dúvida. Dúvida devastadora, dúvida nutritiva!»
(E. M. Cioran, Do Inconveniente de Ter Nascido, Letra Livre)

1.4.18

Ele há coisas...

...que me metem espécie.
Por um lado, pagamos, e não bufamos, os contínuos desaires da banca e continuamos à toa sem saber quem recebeu a mais, quem desviou, quem geriu, quem fez vista grossa, alguém que seja responsabilizado! Por outro lado, temos um tal Antonio Pedro Silva, administrador dos CTT, que não só acha que uma loja de construção civil pode ter um posto de correios, ou que uma junta de freguesia possa dispor também de um posto e que, por via protocolar, haverá uma contribuição financeira que poderá pagar totalmente ou parcialmente o funcionário. O dinheiro tudo pode.
Servir as populações até aplaudo, mas não tardará, que em caso de queixas e reclamações, ficaremos a saber sobre quem cairá o ónus odioso.
Numa entrevista, o dito administrador ainda teve cara para dizer que de momento não sabiam quanto é que a empresa tinha poupado com o fecho das lojas, que só lá para o final de Abril e que seria algo que requeria maturação.
Esta resposta dada ao jornalista aponta para dois aspetos: a empresa está a ganhar tempo para apresentar valores por entre rodriguinhos e malvasias, tudo embrulhado em boas intenções ao serviço do povoléu. Ou demonstra que fechou postos de correios a olho nu, sem acautelar necessidades e direitos das populações, em suma, sem estudo prévio de custos e ganhos!
 Isto é para acreditar?
Deve ser, porque um país quase inteiro que acredita que um homem morreu e ressuscitou ao terceiro dia e que esse mesmo homem nasceu do cruzamento de uma mulher virgem com uma pomba, acredita em tudo. Sobretudo em milagres.

Fogos regados a gasolina

Quando não  se tem cão,  caça-se com gato. E o tempo que não está de feição para atiçar fogos... Nanja por isso! Já o poeta bradava,...