16.2.18

Rituais anacrónicos

Acabei de ler uma troca de ideias ali num blogue que me fez mergulhar numa reflexão.
Sobre a quaresma.
Alguém diz que na quarta-feira de cinzas e sextas-feiras tenta sempre "cumprir" com a refeição de peixe, embora nem seja muito ligada a essas coisas, mas como a mãe "cumpria", gosta de seguir o que ela lhe ensinou.
Logo outra pessoa responde que nada tem a ver com a religião, mas que "cumpre" sempre unicamente com um sentimento de libertação pessoal.
Não vou tecer considerações sobre fé, ou crença, porque cada um toma a que quer, o que me chama a atenção,  e desde muito cedo, são certos rituais da igreja católica que se entranharam de tal maneira na sociedade que se tornaram dogmas. Inquestionáveis.  A ideia do cumprir, a ideia da tradição,  a ideia de que comer carne é pecado e até, pasme-se,  comer peixe pode ser um sentimento de libertação pessoal.
Dizia a minha avó que antigamente as pessoas pregavam as salgadeiras - arcas de madeira onde guardavam as carnes salgadas dos porcos, fonte de sustento familiar - para que não caíssem na tentação de comer carne. E também me contava que quem pagasse a côngrua ao padre já podia comer carne. Exceto às sextas-feiras. Imaginemos aqueles tempos de grande pobreza, onde só os ricos podiam comer carne porque acertavam contas com a igreja...
Desde cedo que estes e outros rituais me revoltavam pela hipocrisia, pela manipulação descarada, bem longe, ainda, de concluir que a bíblia é uma metáfora bem urdida por homens espertos e capaz de domar multidões.
No século XXI, permanece a ideia de obrigação, a ideia de cumprimento por tradição,  a ideia de que a abstenção da carne é libertadora porque implica sacrifício.
Algo mudou: hoje o peixe é bem mais caro do que a carne.


2 comentários:

  1. O pecado maior era pregar as salgadeiras... Um autêntico sacrilégio!
    Cumprimentos

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    Respostas
    1. Se seria...!
      Um mês e meio a comer sardinha e bacalhau e quando havia, era mesmo o sacrifício supremo.
      Abraço

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