29.9.17

Vidas suspensas

88 anos. Não abria os olhos e a espaços suspirava profundamente, uma espécie de uivo que saía do quarto e se espraiava pelo imenso corredor, misturando-se com o vozerio de quem ali trabalha diariamente. Depois, agarrada às grades de proteção da cama, ora gritava por Deus, ora gemia baixinho que queria ir para casa. Surda, as pessoas comunicavam com ela a berrar e assim lhe davam banho como se fosse uma boneca de trapos, assim lhe davam a comida, assim a mudavam. Mas a dona Amélia era, apesar da gritaria, tratada com carinho. Naquele instante, havia uma ainda jovem mulher debruçada sobre a senhora que lhe dizia ser a sua filha, a M. Diálogo difícil,  sem conseguir atinar, a idosa ia perguntando...Olhe, vim aqui a uma consulta e tenho que ir-me já embora. E saiu. Fcou com a mão no ar, em busca de contacto. Entrou a enfermeira e ela chamou: M? Não, sou a enfermeira R. E a M? Como a enfermeira nem deu conta da presença da M ficou sem saber que responder. Passado pouco tempo, a cena repete-se, agora com um filho, um pouco brusco, que lhe foi dizendo, melhor berrando, que era o D, e que  ela não ia nada para casa porque não tinha quem tratasse dela. Por duas vezes entrou e por duas vezes saiu e de cada vez que saiu borrifou abundantemente as mãos com o gel antibacteriano disponível na grade da cama. Pressentindo a presença de alguém : ó D, estás aí?  Onde estás?  Não,  dona Amélia,  sou o enfermeiro. Agora acalme-se. E, de mansinho, o choro voltou.
Na cama ao lado, incapaz de me mexer, senti um enorme nó na garganta e que se desfez em lágrimas.

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