8.8.17

Retalhos de uma profissão #2

E continuei a rasgar. Eram já vários os sacos que  depois transportei para o ecoponto mais proximo.
Há, agora, que fazer a triagem dos numerosos livros de apoio ao estudo de obras, de apoio ao estudo da Cel ( Conhecimento Explícito da Língua ) e respetivas fichas de exercícios  e outros, e fazê-los chegar a quem deles precise.
Durante quase duas décadas,  enquanto coordenadora da disciplina,  tal como todos os docentes com esta função, recebia, em primeira mão, dezenas de livros das Editoras, do 7° ao 12° anos, consoante o mapa de adoção de manuais. Após a escolha do manual pelo grupo disciplinar, eu guardava comigo os que vinham em meu nome, enquanto docente,  e entregava à escola os duplicados que vinham também em meu nome, mas enquanto coordenadora.
Era o tempo das vacas gordas das Editoras, um regabofe! Recordo que a então Porto Editora chegava a pôr no mercado 4 manuais para o mesmo nivel de ensino e que eram produzidos por 4 equipas diferentes de professores.
Os manuais que fui acumulando enviei-os para Angola e Guiné.
Todos os anos, do meu grupo disciplinar, saía um protesto contra a colocação de manuais no mercado sem a chancela prévia do Ministério da Educação. Qualquer produto à venda necessita de homologação,  mas os manuais didáticos andavam em roda livre. Até há poucos anos, os professores eram o único filtro da avalanche de manuais que inundavam o mercado escolar, sendo obrigados pelo Ministério a analisar cada um deles e segundo uma longa lista de pressupostos - que iam da pertinência científica, respeito pelos direitos humanos à relação peso/resistência ao desgaste/preço...e preencher duas folhas por cada livro e ainda justificarmos a razão da rejeição em detrimento do manual escolhido! Quantas foram as vezes que só ao longo do ano dávamos conta dos erros dos manuais? Era humanamente impossivel cumprir com rigor esta tarefa que nos era imposta.
As editoras, inebriadas  com a desregulação do setor, foram refinando os seus produtos sob a designação pomposa de "conceitos", aumentando uma parafernália de recursos de apoio ao manual: cd's, caderno de atividades para o aluno, caderno de apoio para o professor, caderno de apoio para a preparação do exame final, mini gramáticas, caderno de apoio para as planificações do professor...etc! Ultimamente, a coisa chegava em grossas caixas, ou em dossiers especiais.
Com a fusão de algumas editoras gerou-se um forte monopólio que tomou conta do setor livreiro escolar.
De há uns anos a esta parte, o Ministério da Educação criou comissões técnicas que passam a pente fino cada um dos manuais antes de serem colocados no mercado.
A tarefa, diria responsabilidade, dos professores ficou facilitada e, deste modo, passaram a poder adotar o manual que melhor se adequa ao perfil dos seus alunos.
E isto leva-me a outra questão que sempre me acompanhou: haverá necessidade de adotar um manual, concretamente na disciplina de Português, no Ensino Secundário?

3 comentários:

Pedro Coimbra disse...

O negócio dos manuais escolares também envolve muito dinheiro e muitos interesses.

Portuguesinha disse...

É mesmo verdade.
Tem sido mudanças vergonhosas.
Fico feliz por doar os manuais a países do terceiro mundo.

Como disse previamente, o conhecimento não tem prazo de validade :)
E um poema de Pessoa continua um poema de Pessoa heh.

Abraço

Célia disse...

Sim, Pedro, envolve muito dinheiro. O estado devia criar uma linha vermelha aos livreiros, mas logo viriam alguns criticar a limitação à suposta livre iniciativa privada.

Sim, Portuguesinha, um poema de Pessoa é sempre o mesmo, isto é, as palavras, mas o contexto interpretativo vai mudando.
Os programas didáticos precisam de ser arejados de vez em quando. E há calendários precisos, mas o que leio por aí dá-me a impressão que há pessoal que julga que as mudanças se dão à vontade do freguês.