31.8.17

Só mais umas palavras sobre o assunto

"É bonito constatar que há quem acredite tão religiosamente na educação que acha que se vestir um menino de rosa e lhe der uma Barbie ele se transforma numa menina.
Quando nasci, em 1964, a lei dizia que, por ser menina, era e seria menos que um menino."

Fernanda Câncio, jornalista

E assim começa uma crónica desta jornalista que não deixa cair no esquecimento algo tenebroso de um passado ainda não muito distante.
Este texto surge no seguimento da celeuma levantada à volta de uns cadernos de atividades para crianças dos 4 aos seis anos, publicados pela Porto Editora.
Uma vez mais, são os gritos e apitos das redes sociais, onde a escrita não tem filtro, que tudo misturam, que tudo trituram, chamando à colação censura, esfera ptivada, esfera pública, interferência abusiva do estado na educação das crianças, liberdade de expressão, etc, etc.
É lamentável que esta situação seja alvo de críticas tontas, redutoras e que seja ridicularizada ao ponto de passar a fazer parte dos tesourinhos da silly season.

Também eu nasci no tempo em que o menino era mais do que a menina. Cresci com um sentimento de raiva e impotência face a um país cujo estado menorizava a mulher pela via da própria Constituição!
Recordo uma situação que vivi, já nos finais da década de 70. A trabalhar e a estudar, com uma bebé,  o meu marido ainda a estudar - perdeu 3 anos na vida militar - as dificuldades eram grandes. Na altura, concorremos à aquisição, com a ajuda dos pais, de uma habitação social e fui eu a encetar o processo. Um dia fui à  Câmara perguntar sobre o andamento do dito processo e perguntou-me um já entradote manga de alpaca:
- Mas onde está o chefe de família?
Eu, pespineta, perguntei-lhe se desconhecia a nova Constituição de 1975! E que no meu casamento não havia chefes! Embaracei o homem.
Voltando ao escarcéu que por aí anda, que se conclua que estereotipar práticas e comportamentos de meninas e de meninos é recuarmos no tempo.
Homens e mulheres são anatomicamente diferentes e bendigo essa diferença, mas não a nivel do acesso ao mundo, que se dê liberdade às crianças na escolha das cores que preferem, dos brinquedos que preferem, das brincadeiras que preferem e deixem-se de anátemas discriminatórios.  Os preconceitos deixam mossas no futuro das crianças.  Reproduzir estereótipos do passado significa continuarmos a assistir à menorização do papel da mulher na sociedade. Não se trata de condicionar a liberdade de expressão, de censura, apenas fazer da mulher um ser ativo que, em parceria com o homem, possa deixar a sua inscrição no mundo que a rodeia. E a nossa Constituição assim dita.



2 comentários:

  1. Essa discussão à volta da igualdade de géneros já nem faz sentido nenhum.
    Sou pai de duas filhas, vivo rodeado de mulheres.
    Que não são nem melhores nem piores que os homens.
    São diferentes, e ainda bem que o são.

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  2. Sim, ainda bem que são diferentes. E a questão, a meu ver, nem tem a ver com uma competição entre géneros, mas sim com uma sociedade que continua a subalternizar a mulher e onde, infelizmente e pelos exemplos diários, continua a ser considerada propriedade de alguns machos.
    Lamento a filosofia de base, a tal que continua escondida nos pequenos atos. Não quereria que uma neta ou bisneta, que não tenho, voltasse a precisar de autorização do marido para viajar para o estrangeiro.
    Exagero? Talvez. Mas a História das civilizações está cheia de retrocessos
    Abraço

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