20.6.17

Fogo! E os comentários?

Palavras de um amigo meu que tem "floresta" e sabe bem do que fala. E eu também conheço essa realidade porque vivemos numa das maiores manchas florestais do país  e sem fogos. A prevenção e a conservação da nossa floresta resultam de ações concertadas entre as várias entidades locais.
Leiamo-lo!

"A floresta, tal como existe, com produção intensiva num clima mediterrânico, só tem uma solução: ou é reprodutiva e como tal, é humanizada e está mais contro lada em termos de ignição e propagação, ou pura e simplesmente arde, pelo abandono e consequente aumento brutal da carga combustível.
Iria mesmo mais longe. A litoralização do País, com o abandono das zonas rurais, transformou zonas agrícolas em floresta quase selvagem. A produção desordenada do eucalipto, agravou a situação, e no meio de tudo isto, o " negócio do fogo", que não é nada de desprezar.
Mas como factor principal, entendo que a culpa maior é do centralismo lisboeta que impuseram ao País.
E dá-me náuseas assistir a tanta inteligência dos comentadores e fazedores de opinião da TV, para quem o País profundo deveria ser uma reserva de índios onde pudessem passear, fruindo de uma paisagem maravilhosa para mostrar aos meninos, como os avós viviam. É tão giro...
Há momentos em que a paciência se esgota, e depois de uma tragédia destas, ter de ouvir papagaios, jornalistas e comentadores que não fazem a mínima ideia do que é arranhar o cu num tojeiro, só me apetece mandá-los bardamerda!
Desculpem o calão."
João Fonseca


Segundo texto:

"Para muitos comentadores e entendidos de última hora, floresta devia ser um sítio paradisíaco onde se caçasse, fizesse um picnic e no final do dia bem passado na " província", se regressasse a Lisboa para convidar os amigos para um bom escabeche de perdiz.
Como pode haver ordenamento florestal, num país onde as pessoas foram obrigadas a ir para Lisboa trabalhar, e deixaram os campos ao abandono?
O planeamento começa por ter coragem política de inverter a assimetria no país, promovendo a descentralização, a oportunidade de emprego no interior. E aí talvez a floresta voltasse a ser humanizada e então sim, exigir o ordenamento, o cumprimento de regras de boa exploração.
Com 75% do território abandonado, como pode a floresta deixar de o ser também?
Num país de serviços, onde se caminha a passos largos para ter metade da população nas duas grandes áreas metropolitanas, como evitar a completa desordenação florestal? Se não há pessoas no interior e a floresta está no interior, quem trata dela?
Cuidemos, antes de proclamar verdades absolutas de ordenamento, de planificação, de cumprimento de legislação, de ataques político partidários mesquinhos, de atacar o que está por trás de toda esta desgraça: a assimetria demográfica, que desertificou 3/4 do País.
Não querendo ser profeta da desgraça, se não houver mudança de paradigma de desenvolvimento, esta catástrofe dos fogos florestais, só pode piorar."

João Fonseca

3 comentários:

  1. Chapelada para o texto e para a reflexão do seu amigo!

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  2. Sim, Pedro, ele é um profundo conhecedor da floresta.
    Bj

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  3. Já tinha lido de viés quando me recomendou, mas só hoje pude ler mais pausadamente. No essencial concordo, mas eu não sou especialista na matéria...

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