11.11.16

O cepinho das marradas

Esta expressão usa-se muito na minha zona, às tantas nas outras também, não sei.
Assim considero o AO. Transformou-se no bombo da festa onde vão bater aqueles que querem justificar toda a casta de erros que andam por aí a boiar na espuma de muitos blogues, jornais, revistas...E depois temos ainda os objetores de consciência que penduricalham o textículo ao fundo dos seus escritos, numa jura de honra, a explicar que continuam a escrever como antigamente e há, ainda, quem invoque a língua de Luís de Camões ( antes dele a comunicação fazia-se por sinais de fumo, tambores e outros recursos medievos! Era o caos!) e nem reparam que estamos a ser invadidos e colonizados por linguajares estrangeiros. Até os jornais, que deviam visar  os leitores comuns, estão pejados de estrangeirismos...e de erros!
Já em tempos referi que não sou fundamemtalista no que diz respeito ao AO, e concordo que há arestas a limar, mas é irritante continuar a ouvir/ler reações  de diabolização baseadas em exemplos disparatados. A língua é de todos e, por isso, todos têm o direito de opinar? Todos temos um estômago e será que todos nos pronunciamos sobre o aparelho digestivo? Eu não, porque não domino o assunto. As pessoas são, evidentemente, livres de gostar e adotar o AO, ou não, mas se não dominam o assunto, será melhor procurar conhecê-lo. 
Sobre esta onda de estrangeirismos que tudo invade, que até numa receita de culinária de uma revisteca qualquer lá os encontramos, eis aqui uma opinião:

O que se passa com o nome das lojas em Portugal é realmente preocupante. Não escapou à observação do constitucionalista Jorge Miranda. Relembremo-lo aqui mais uma vez:

«Serão, porém, cumpridas as obrigações constitucionais e respeitado o direito à identidade linguística dos cidadãos portugueses? A pergunta, infelizmente, justifica-se porque: […]

- Se espalham denominações de sociedades e cartazes publicitários em língua estrangeira;

- Se impõe outra língua a alunos portugueses, em violação do seu direito fundamental a língua, em aulas ministradas por professores portugueses em escolas universitárias portuguesas (coisa diferente, claro está, será o caso de aulas dadas por professores estrangeiros);

- Muitas vezes não se incentivam os alunos do programa Erasmus a aprender português, quando este programa, pelo contrário, visa a interculturalidade e não a uniformização linguística;

- Se observa o uso público de línguas estrangeiras por titulares de órgãos de soberania nessa qualidade;

- Os sucessivos memorandos de entendimento com o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu não têm tradução oficial e não têm sido publicados no Diário da República;

- Se verifica acentuada degradação do português como língua de trabalho na União Europeia.

- Apenas um provincianismo antipatriótico e uma prática de subserviência pode explicar estes factos, esquecendo-se que a língua é quase o único domínio de independência que hoje nos resta, que é língua oficial de mais sete estados e que é falada por mais de 200 milhões de pessoas em todos os continentes.»
. O Acordo Ortográfico tem sido frequentemente criticado por muitos especialistas e não especialistas como atentatório do português. Não vou discutir o assunto, até porque não sou especialista, embora não esconda a minha preferência por ele na medida em que possa contribuir para a afirmação internacional da língua portuguesa (que é uma só, apesar das variantes portuguesa, brasileira, africanas e asiáticas – não estamos numa situação semelhante a do latim aquando das invasões bárbaras).

Mas gostaria que aqueles que estão tão preocupados com a nova ortografia, boa ou má, se manifestassem ainda mais inquietos com os problemas que acabo de lembrar.»

Jorge Miranda, «Outro direito fundamental em risco: o direito à língua», Público, 9-2-13, p. 47.

                                          (da net)

2 comentários:

  1. Acordo Ortográfico?
    Passo!
    Boa semana

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  2. Olá, Pedro!
    O que eu acho é que há muita gente a diabolizar o Acordo Fotográfico e nem dão conta de outras transformações bem mais graves que a língua está a sofrer. Toda a gente discute a pulga e não veem o elefante no meio da sala.

    Bom fim de semana!
    :-)

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