16.10.16

“Pergunto-me se um homem que nunca fodeu pode ser bom escritor”


A literatura - que nos últimos dias, à custa da atribuição do Prémio Nobel, despertou a atenção de uma horda de experts que afinal têm andado por aí tão subaproveitados, - é uma arte e, enquanto tal, as suas manifestações são passíveis de despertar as várias escalas do sentir que podem ir da idolatria à rejeição, passando pela indiferença.
No mundo da literatura, quer em Portugal, quer no estrangeiro, sempre houve ódios de estimação entre escritores e alguns de origem bem prosaica.
Sobre Fernando Pessoa, diz Lobo Antunes:
"O livro do não sei o quê [Livro do Desassossego] aborrece-me até à morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Whitman; a de Ricardo Reis, de Virgílio. Pergunto-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor“. 
Chamava a Virgílio Ferreira "o Sartre de Fontanelas".
Eça e Camilo são como "pigmeus".
Numa entrevista, em que é feito um paralelismo entre ele e Saramago, que já tinha sido Prémio Nobel: " Ó Carlos ( Vaz Marques ), se me quiser arranjar competições arranje-me pessoas do meu tamanho". 
Lobo Antunes pode fazer as afirmações que lhe dão na real gana, e faz, mas começa a saturar ler-lhe tanta amargura, anta raiva, tanto desdém, tanta pretensa superioridade intelectual, tanta dor de corno...Dispara em todas as direções como se toda a sociedade estivesse em permanente dívida para com ele.
"...abordou ainda os vários prémios que ganhou, dizendo “o que me interessa neles é o dinheiro” e não o prestígio.". 
"Tá bem, Chico!"- acrescentou eu.
Eu até gosto de algumas das suas obras cujas estruturas normalmente me surpreendem, mas, caramba, o seu destilar verrinoso seca tudo à volta.
A velhice está a azedá-lo e o grave problema de saúde que viveu, e cujos estados de espírito desnudou dramaticamente nas crónicas da revista Visão, parecem estar a contribuir para uma escrita solipsista em que erege uma estátua a si próprio (ler a Visão desta semana) e se borrifa para os leitores. Este seu lado de enfant terrible exacerba-se cada vez mais e os seus demónios são sempre os mesmos. Reentra no vazio e nele se despenha.
Ou como canta Caetano Veloso: " Narciso acha feio o que não é espelho."
É pena. Lobo Antunes é um dos maiores escritores portugueses. Mas também sabemos que a obra irá sobreviver ao homem. E isso, afinal, devia bastar-nos.

(Narciso enamorado de si mesmo)



2 comentários:

  1. Lobo Antunes que, por acaso, é um dos escritores que só com muita dificuldade leio.
    Boa semana

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  2. Não é um escritor fácil e nos tempos que correm esta será uma nota distintiva no panorama nacional.
    Boa semana igualmente para si, Pedro.

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