12.8.16

Na rota dos canadairs

48 horas sem telefone fixo, internet e televisão (pacote Meo cuja fibra ardeu), numa zona rodeada por vários fogos, ar irrespirável e credos na boca, eis uma brecha...
A minha casa está na rota dos canadairs -inicialmente eram helicópteros com enormes baldes -  que vão abastecer-se de água da barragem e sobrevoam a minha propriedade.
Parece um ambiente de guerra! Os nossos bravos bombeiros estão a ser ajudados pelas gentes do concelho com água e comida.
O concelho onde resido tem uma das maiores manchas florestais e é considerado, pelas entidades nacionais, um exemplo paradigmático positivo no combate aos fogos desde há uns vinte anos a esta parte. Nessa altura, eu era presidente da assembleia municipal e recordo tudo o que foi planeado e posto no terreno. A abertura de estradões até à barragem, após auscultação às populações e sequente expropriação, foi o ponto de viragem.
Este concelho confina com vários outros: Águeda, Anadia, Mealhada, Santa Comba Dão, Penacova, Tondela...e é fácil o fogo propagar-se floresta a dentro.
Ainda sobre a forma como este concelho tentou inverter  a situação anual do flagelo dos incêndios, deixo aqui o texto do meu amigo Dr. João Pedro Fonseca.

"Os fogos florestais
Todos os anos, repetida e invariavelmente, assistimos a este flagelo que consome floresta, riqueza e não poucas vezes, vidas.
É um tema muito debatido durante o resto do ano, e que normalmente quando se chega ao verão, todos esquecemos o que se tinha discutido meses antes.
Mas há verdades indiscutíveis...
O Concelho de Mortagua é invariavelmente assinalado como referência positiva no combate aos incêndios.
Mas não é só o combate. É tudo aquilo que se fez durante décadas, em investimento público local, em infraestruração da floresta, abrindo e implantando cerca de 1000 km ( disse bem, não me enganei no número ) de estradões e caminhos florestais, de pontos de água, de equipamento para os bombeiros, de equipamento para estruturas associativas ( auto tanques ), de equipas de prevenção, vigilância e ataque rápido (24h, nesta fase ), de sapadores durante o do ano.
Mas isso só não justifica o facto da floresta em Mortagua arder menos. Ela arde menos porque está humanizada.
E aqui entra a estrutura sociológica da distribuição de propriedade do concelho: a grande maioria das famílias mortaguenses são, umas maiores outras menores, proprietárias florestais, pelo que todos são um pouco bombeiros com o lema " o lume apaga-se no vizinho...".
Com a rede viária florestal e com o sentimento de propriedade da terra existentes, é quase impossível passarem mais de 10 minutos sem que qualquer ignição não esteja a ser atacada, sendo a chegada dos bombeiros quase de imediato.
Mas tudo isto só é possível porque a floresta é produtiva e continua a ter alguma rentabilidade; quando essa rentabilidade desaparecer, como na maioria dos concelhos, arderá implacavelmente como em qualquer outro local. A presença constante das pessoas na mata, além da gestão que implica cortes e limpezas, permite a detecção imediata e é um fortíssimo meio de dissuasão para casos criminosos.
Concluo que apenas a rentabilidade permite uma prevenção eficaz..., com a polémica que esta conclusão pode implicar, pois não vale a pena tentar implementar grandes políticas de planeamento e gestão florestais, se dela as pessoas não puderem extrair rendimento. É isto que muita gente ainda não percebeu! Por muito que nos custe, e com o clima que temos, em Portugal a floresta não pode ser contemplativa, tem de ser produtiva. Senão...arde!
E rezo, eu que sou ateu graças a Deus..., para que se passe o resto de verão sem desgraças..."

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