24.4.16

Até podia ser a história da minha vida...

Casaram cedo.
Ela trabalhava em partime, incluindo sábados, domingos e feriados, em sistema de roulement, e fequentava o primeiro ano da faculdade de letras de Coimbra.
Ele veio para Coimbra estudar engenharia civil, após o Estado lhe ter roubado três anos e tal em nome de uma guerra que já ninguém percebia e queria. A revolução de Abril apanhou-o em Moçambique, zona norte.
Ambos deslocados das residências dos pais  e para poupar gastos, resolveram casar. Passaram a viver na quinta de uns tios, nos arrabaldes da cidade, onde alugaram um quarto e com serventia de cozinha.
Aconteceu. Iam ser pais. A vida complicou-se. A ajuda dos pais era diminuta e por três razões:uns por dificuldade económica, outros por razões ancestrais que defendiam que só a morte justificava a distribuição da herança e a outra razão era a dos próprios jovens que tentavam sobreviver sem ajuda.
Tinham uma bolsa da universidade, 1.500 escudos cada um, a menina frequentava gratuitamente os infantários dos serviços sociais da universidade, espalhados pela cidade, consoante ia crescendo. Almoçavam sempre nas cantinas universitárias.
Foram tempos muito difíceis. Muito.
Acabaram os cursos.
Ela continou a trabalhar no mesmo sítio, onde, após concurso escrito e oral, entrou para os quadros da instituição pública, a ganhar 5.250 escudos
Ele foi para uma pequena empresa de construção civil, sediada na Figueira da Foz. Ao fim de um ano, foi para o Porto, para uma das maiores empresas de construção civil, à data, onde permaneceu ao longo 32 anos.
Mais tarde ela optou pela docência.
Os pais dele faleceram no espaço de três anos. Filho único, herdou duas casas já antigas que foram vendidas. Com esse montante, o casal comprou um T1 no Porto porque ele, durante a semana, ficava numa pensão. Ela ficou com os dois filhos, entretanto tinha nascido um rapazito, na pequena vivenda que tinham construído, sita numa bonita vila. Efetivou-se na escola secundária dessa mesma vila.
Com um pequeno montante que sobrou da venda das casas e após a aquisição do T1, deram entrada para a compra de um T3 na Figueira da Foz, a menos de uma hora de distância da sua residência e que servia, e ainda serve, de refúgio de férias. Contraíram empréstimo bancário e a menos de metade dos anos previstos, pagaram a totalidade restante.
Ele, entretanto, e por conta da empresa, esteve em Luanda, foi responsável por várias obras bem conhecidas no Porto, obras em Vila Real, e tantas outras na área metropolitana do Porto, desde Viana do Castelo, Espinho, Curia, viadutos e troços de autoestrada e não só. Um dos maiores desafios foi o de diretor da ACE responsável pela construção do hospital de Tomar, cidade onde esteve ao longo de mais de três anos.
Os filhos cresceram. A rapariga cedo atravessou a fronteira do país. O rapaz ia frequentar engenharia civil na Feup. O T1 não era suficiente para pai e filho. Embora ele andasse de obra em obra, precisava de poiso no Porto.
Compraram um duplex, em frente ao hospital de S. João. O filho optou por ficar sozinho no T1. Acabou o curso, mergulhou na profissão. Também atravessou já a fronteira do país.
Ele, o pai, ainda esteve em S. Tomé a acabar de construir um hotel e depois como técnico superior da OperaEstradas XXI. Reformou-se e ela também. Estão a desfrutar em harmonia este momento das suas vidas de trabalho e empenho profissionais.
Os apartamentos do Porto, e para fazer face aos Imis, condomínios e gastos de água e eletricidade, foram alugados e, sempre cidadãos exemplares, passam recibos.
Este casal nunca viveu acima das suas possibilidades, pelo contrário, sempre soube gerir a sua vida, adquiriu bens pela força do seu trabalho, sem fugas a nenhuma responsabilidade cívica e só a partir de 2000 começou a viajar no país e no estrangeiro.
O que sentirá este casal ao ouvir que o Estado vai aumentar o Imi das casas vazias para incentivar os alugueres? Será o seu apartamento da Figueira da Foz, onde eles passam alguns fins de semana e algumas semanas no verão, uma casa vazia?!
Aguardam mais pormenores, e olhando para a sua vida passada sentem que não merecem.
E nós também sentimos o mesmo!

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