31.12.15

As doze passas

Nunca consegui definir um desejo por cada uma das passas que fui metendo na boca ao longo de tantas passagens do ano já vividas.
As razões são variadas. Uma delas será porque nunca tive 12 desejos, duma assentada, para realizar. Mesmo se os tivesse, só com uma lista ali à mão, o que, convenhamos, não é lá muito prático. Depois porque é uma tradição a que nunca liguei muito. Impaciente, ao terceiro gesto de levar a passa à boca, é certo e sabido que já lá vão as restantes 9!
Assim mastigo alegremente todas as passas como se todos os desejos, ali misturados, fossem apenas um só sonho. Uno. Total.
Por isso, prefiro o sonho ao desejo. É também por isso que prefiro o feliz ao bom.
Mas não me leves a sério e faz um desejo por cada passa!

Feliz 2016.









27.12.15

Portugal modernaço


Sempre evitei dizer mal do meu país, só por dizer. Mas há hábitos, manias, tiques, sei lá que mais, que se nos colam à pele de tal modo que desconfio que já fazem parte do adn de ser português.
Trata-se da forma acrítica como importamos modas estrangeiras e as usamos à trongamonga!
Recordo Eça de Queirós que, através de um dos seus alteregos, João da Ega, já retrata este nosso modo deslumbrado, provinciano, de adotar o que há do outro lado da fronteira sem olhar a realidade lusitana.

" E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barco varinos…
Isto é fantástico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio à antiga, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro - modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha…. Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado - exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta - imediatamente o janota estica-o e aguça-o até ao bico do alfinete." (in Os Maias)  

Ontem, parada num semáforo da Av. da Boavista, Porto, andava um moço a distribuir flyers ( outra modernice chic a valer!). Aceitei um.
Saiu-me um Isto é fantástico! Continuamos a ser os maiores a imitar! Mal...mas carambas!...pomos toda a gente a falar a língua dos beefs mesmo que nada condiga com nada!

Além de nenhum dos dias assinalados ser "friday", o dia anterior, 25, foi dia de Natal e não o "Thanksgiving Day"- portuguesmente falando, o dia da Ação de Graças - que é feriado nos U.S.A, e suponho que no Canadá, e se celebra na quarta quinta-feira de novembro, sendo a sexta-feira seguinte a tal "Black Friday".
Ainda há o "Boxing Day", feriado em muitos países anglófonos, dia a seguir ao Natal, mas que muda para segunda-feira caso caia num fim de semana. Nesta data, os estabelecimentos comerciais fazem liquidação das suas mercadorias, escoando os produtos a preços muito baixos.
O Boxing Day, apesar de tudo, seria o que melhor traduz esta época de saldos (palavra em vias de extinção?!)
Concluindo: somos o mesmo país do século XIX, tão bem caricaturado pelo nosso grande prosador.
Cansa.

20.12.15

Presidentes vitalícios

São conhecidas algumas das regalias dos ex-presidentes da república. Sempre li e ouvi, aqui e além, fortes críticas sobre essas regalias e o quanto eram onerosas para um país depauperado como o nosso.
A pensar nisso, e estando o país em vias de passar a ter um quarto presidente "emérito", e um quinto eleito, fui pesquisar.
* os ex-presidentes da república recebem 80% do vencimento do presidente em exercício: 5. 218 € ilíquidos;
* carro topo de Gama do estado;
* motorista;
* combustível;
* gabinete de trabalho, com telefone, secretário e assessor;
* ajudas de custo iguais às do primeiro ministro sempre que se desloquem em missões oficiais fora de área de residência;
* nas deslocações ao estrangeiro, recebem também um livre-trânsito ou um passaporte diplomático;
* em caso de morte, há direito a uma pensão mensal de valor igual a 50 por cento do vencimento do presidente em exercício para os cônjuges, filhos menores, ou incapazes e ascendentes a cargo.

As despesas são comprovadamente astronómicas e, se por um lado há que proporcionar alguma dignidade a quem esteve à frente da nação, por outro há que rever algumas regalias que são uma afronta à situação económica do país.
Daqui a um mês, passaremos a ter cinco presidentes da república. Quatro deles são ex, mas os gastos previstos para a manutenção das suas regalias são pouco inferiores aos gastos do presidente em exercício.



19.12.15

Macau re-sentido.

Na rubrica dos Perdidos e Achados, a Sic relembrou os 16 anos que marcam, logo às 00.00,  a transferência de soberania do território português para a Região Administrativa Especial de Macau, da República Popular da China.
O Macau que vi nesta incursão televisiva é muito diferente daquele outro que conheci há umas décadas, quando lá estive durante um mês em serviço oficial.
Consegui identificar muitos espaços e edifícios. Apesar de haver agora soberbas construções, altos edifícios, ressaltou a traça peculiar do hotel Lisboa que continua com a mesma imponência, pintado da mesma cor...gostaria de espreitar o enorme hall para ver se o célebre candeeiro, um dos maiores do mundo, à época, ainda continua a iluminar aquele espaço fantástico. As ruínas da igreja de São Paulo, a  zona circundante de arquitetura bem portuguesa, o Leal Senado, o jardim chinês, não sei se agora com outro nome, onde escutei, pela primeira vez, o som mágico do Rão Kyao (onde anda ele?!) e o bulício das ruelas de pequenos comércios, pejadas de pessoas, sons, cores, cheiros...numa sinestesia inebriante!
Ver é sentir e quase juraria que senti o odor daquelas canjas de rua que tantas vezes comemos, em pequenas mesas corridas e servidas em taças de porcelana com colheres pintadas e de igual porcelana chinesa.
E onde estará agora a minha amiga Felícia de quem perdi o contacto?
Saudades de ti!


Reciclemos o amor. Urge.


"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.”
     Zygmunt Bauman.






18.12.15

Telenovela do coração

Ele, pelos vistos, é tarado sexual, ela é frígida e formam, como é bom de ver, um casal cujo testo não é para aquela panela. E vice-versa.
Pergunta-lhe a psicóloga:
- Mas não sente vontade de estar em intimidade ( ó linguagem sacripanta do catano!) com o seu marido?
- Não! Bem sei que é meu dever...blábláblá

Pasmei! O perfil da personagem choca frontalmente com está visão de sacrifício da mulher no casamento! Mas quem escreve tal coisa?
Ontem, a tal mulher casada e frígida foi facilmente engatada no bar de um hotel e, num estalar de dedos, seguiu o gajo para o quarto.
Mas a frigidez é doença, ou só se manifesta na presença do mesmo prato?
Hoje vou ficar a saber se ela se entregou ao êxtase amoroso e lamentou o tempo perdido, e se afinal ela só congela junto do marido!
E fazer um teste de adn? Vão à farmácia comprá-lo como quem compra pastilhas para a tosse.
A ideia que fazem passar é mesmo essa. E haverá sempre quem acredite. Digo eu.
Mas pior, pior mesmo, é contribuírem para a reprodução de uma sociedade machista.

17.12.15

Não entendo.

A vida já me ensinou, pensava eu, que nem sempre tenho de perceber os motivos que justificam algumas atitudes das pessoas. Além da minha curiosidade já não ser a mesma, fui-me cruzando com tanta variedade de pessoas que observo os comportamentos do outro com alguma bonomia e abertura.
Uma vez por outra lá aparece uma situação que me faz estacar o corpo e a mente, pelo seu inusitado.

A atriz Sofia Ribeiro tatua o dia (13 de novembro) em que descobriu ter cancro. "O dia 13 será sempre o meu dia de sorte! Sempre. Beijos no vosso coração. Estamos juntas", escreveu no Facebook.

Entendo que a moça sublime os seus medos e recuse deixar vencer-se por eles. É positivo. Entendo, pelo exemplo que infelizmente conhecemos de pessoas que nos são, ou foram, próximas, que é fundamental uma força de vontade enorme e tudo o que contribua para acreditar que a vida seguirá o seu percurso normal. Sabemos, também, por vários testemunhos, que viver o drama do cancro muda a perspetiva da vida. Tudo se relativiza. Até entendo que essa data seja marcante para sempre e que a superação da doença redunde na euforia de viver. É sempre a vitória da vida!
Porém, já não entendo que numa fase inicial deste drama, que eu espero que ultrapasse, a atriz venha dizer que esse 13 será sempre o seu dia de sorte.
Sorte?! Ironia por ser tido como dia de aziago? Assim ela a tenha num futuro próximo. Essa sim, será a verdadeira sorte.
Oxalá.


8.12.15

Pataniscas de lampantana?

Ultimamente assistimos a uma febre à volta dos comes e bebes. Cozinha gourmet, cozinha de fusão, cozinha de autor, nomes esquisitos de ingredientes de difícil pronúncia, pratos enornes com um montículo de coisas coloridas cobertas por espumas a fazerem lembrar-me bílis indispostas, riscos escuros , à Deli, lançados por sobre tudo aquilo, e é a almejada estrela michelin, e são os chefs de cozinha, aos magotes alcandorados  ao estrelato e são as pesticarias, as tacarias, as champanharias...e é o gelado com sabor a bacalhau e é a vichyssoise de grelos, o consomé de sardinha e o diabo à seta que me faz concluir que burro velho já não aprende línguas. É o meu caso. Essa é que é essa!
Não sei se é a vontade de inovar, se é o apregoado emprendedorismo - versão sofisticada do século XXI do provérbio: a fome e o frio põem a lebre a caminho. - sei é que à pequena escala regional dou-me conta que a vontade de procurar novos conceitos, como agora se diz, anda também aqui pela minha zona e que não vai ao encontro do meu paladar. Deve ser problema meu! Mas deixa-me um pouco constrangida porque sou de boa boca e nunca rejeitei experimentar comidas diferentes e até exóticas.
Pão quente recheado de leitão ( fica mole e com sabor a requentado), rissóis de leitão, e agora rissóis e pataniscas de lampantana*! Os produtos-base são "recozinhados", logo, as caraterísticas que os definem e tornam peculiares desaparecem.
Gostaria, a sério, mas acho difícil eu reciclar as minhas papilas gustativas, ou lá como se chama isso!

* lampantana é feita com carne de ovelha e que vai ao forno de lenha em caçoilas pretas e coberta de bom vinho tinto, para além de outros ingredientes.
Há também a chanfana mas que é feita com carne de cabra.

Chanfana e leitão são pratos bem bairradinos.



Fogos regados a gasolina

Quando não  se tem cão,  caça-se com gato. E o tempo que não está de feição para atiçar fogos... Nanja por isso! Já o poeta bradava,...