21.4.14

Futebol em tempo de Páscoa

Considero-me uma pessoa emocionalmente normal, se é que há um padrão que afira a normalidade das emoções. Porém, confesso que, por vezes, temo ter sofrido, lá para trás, algum apagão a nível do córtex cerebral, tal é a minha apatia face a certos fenómenos que arrastam multidões.
Apesar de extrovertida, brincalhona incontinente, logo em miúda não percebia aquela febre de o pessoal querer ter um autógrafo do seu ídolo, à viva força. Nunca me vi a chorar baba e ranho ou a gritar, histérica, num festival de música ou a escutar uma banda. Pular, dançar, pinchar, sim, mas nunca entrei em paroxismos.
Na idade adulta, continuo a não alinhar nas emoções primárias, não por opção, mas porque sim. (Boa resposta - uma faena à justificação.)
Assim, por muito que me esforce para perceber a doença futebolística, aquela febre, aquele cortar os pulsos pela sua equipa, falho redondamente. Não, não critico, apenas esbarro nesta minha incompreensão, nesta minha total incapacidade, não só de perceber como de vivenciar.
Noutro plano, mas muito próximo do anterior, temos a religião. Também aqui fico esmagada porque racionalmente não percebo sempre que observo o fervor de milhares e milhares de pessoas a chorar à vista da imagem da Senhora de Fátima e ainda quando dizem não ter palavras para descrever as suas emoções; o ar compenetrado, sisudo, das pessoas que, de cabeça baixa e a balbuciar ladainhas, se arrastam nas procissões, ou ainda, sonho dos sonhos, querer ver o papa, estar ao pé dele. Que terão ou não, estas pessoas de especial que as leva a este extremo de emoções?
Deve ser gratificante acreditar em algo desta forma tão profunda. Não me sinto em nenhuma crise existencial, mas perturba-me sentir-me do lado de lá do vidro.

Cresci, até aos meus seis anos, em Caxias, local onde se situava a tristemente célebre prisão para onde eram enviados alguns intelectuais portugueses perseguidos pelo regime fascista-salazarento.
O meu pai foi aí guarda dos serviços prisionais e, por isso, cresci a ouvir críticas ao governo, a sentir a raiva e a impotência do meu pai aquando da farsa das eleições de 1958, por exemplo. Eu não percebia grande coisa, apenas que havia pessoas boas que estavam presas e havia as más que entravam nas casas e levavam as pessoas.
Penso que tudo se misturou na minha cabeça e ficou ligado ao fascismo: o Benfica, Amália e Fátima. Futebol e religião são os opiáceos e o fado será a dolência de vidas, gemidas e cantadas de olhos fechados, que se cruzam e descruzam, onde a submissão feminina é agrilhoada pelo machismo marialva.
Felizmente, o fado está a mudar, até na grife. Já escuto com mais agrado.

Hoje consigo separar as águas, mas apenas de forma consciente.

No entanto, preocupa-me o recrudescimento do consumo dos opiáceos lusitanos porque as razões são já nossas velhas conhecidas: a desesperança e o vazio que se passeiam, por aí, pendurados nos olhos das pessoas.



13.4.14

Por outras palavras

Consenso. Consenso. Consenso.

Tudo a uma só voz.

A ditadura que se segue…

Sem esperança, sem sonho, sem mito

“Em baixo, a vida, metade 
De nada, morre.” *

Pior que a falta de memória de um país de cócoras e que vai baixando as orelhas, é o fdp de um gajo que, pela inerência do seu cargo devia evitar diarreias, passa de caçador de bufos e saneador de profs a elogiador de uma escola que promovia a discriminação e o analfabetismo.
Bandalho, malabarista, oportunista.


* “O mito é o nada que é tudo” – F.P


3.4.14

Seu este! Seu aquele!

Secretário de Estado apela a políticos para não usarem termo "autismo" no debate


Diálogo provável:

.Ó pá, és cego ou quê? Não viste que o nosso jogador  passou uma rasteira ao jogador  da equipa adversária?

.Vi! Não sou cego nenhum! Agora, eu acho é que vocês devem ser todos surdos! As vezes que, nas últimas reuniões, eu tenho chamado a atenção para uma crítica mais severa aos nosso jogadores?!

. Ó Zé, és mudo ou quê? Durante toda a reunião ninguém te ouviu uma palavra…

. Pois, mas ultimamente, e desculpem lá, vocês parecem uns autistas

Olhameste, és parvo ou quê? Agora deu-te uma de esquizofrénico? Deixa-te  disso, pá!

Ok…

.Esquece! Vamos mas é ali ao bar emborcar umas jolas e não sejas burro!


O senhor  secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde tem por missão, tal como todos os responsáveis pelo Ministério da Saúde, zelar pelas estruturas e manutenção de espaços hospitalares e ainda pela oferta de prestação de serviços dignos às populações.
À laia de  outros titulares do governo, lá vem mais este baralhar a semântica e inventar falsos estigmas. Se fossemos a expurgar todas as palavras que, de uma forma ou outra, atentam contra a dignidade de pessoas, tal como o exemplo do diálogo em cima, ficaríamos todos mais pobres. Incluindo a pobreza de espírito.

Se eu lhe chamar burro estarei a ofender o simpático animal e irei ter à perna a associação protetora dos animais?



Fogos regados a gasolina

Quando não  se tem cão,  caça-se com gato. E o tempo que não está de feição para atiçar fogos... Nanja por isso! Já o poeta bradava,...