22.3.14

Da caligrafia à falta de educação.

Foi em 1590 que surgiu em Portugal o primeiro tratado sobre os preceitos e exemplos  de regras da caligrafia., da autoria de Manuel Barata ” Nova arte de escrever / offerecida ao Principe Nosso Senhor para instrucção da mocidade, composta por Antonio Jacinto de Araújo, Professor d’Escripta, e Arithmetica, e Correspondente da Academia Imperial das Sciencias em S. Petersbourgo.”

E outros contributos foram surgindo ao longo dos tempos..
O nome caligrafia ( do grego kalligraphia, “escrita bela”) é a arte de escrever bem à mão, sendo ainda a maneira própria de cada pessoa escrever à mão.
A caligrafia, por um lado, promove o desenvolvimento da motricidade fina que lhe está associado e, por outro, desenvolve a mecanização da própria escrita.
Não sei ao certo quando é que a escola abandonou  o treino da escrita das letrinhas entre duas linhas: a cabeça e os pés da letra sempre encostados às barras.
Li algures, ou ouvi, que essa atividade cerceava a personalidade da criança, criando-lhe constrangimentos no desenvolvimento criativo e mais uma dúzia de banalidades embrulhadas em estudos científicos.
Ainda, acho que por pouco tempo, houve uma altura em que passou a ser proibido aos professores o uso de canetas de tinta vermelha para corrigir os trabalhos dos alunos. Quando todos sabemos que se justifica o seu uso por ser uma cor que se destaca bastante  das demais!

Dizia-se, então, que isso os traumatizava! Pergunte-se a um psicólogo e logo ele explicará que cada aluno(pessoa, no geral) é mais sensível, negativa e positivamente a uma cor, o que é verdade, defendendo que os professores deverão usar a cor de correção consoante o aluno. Aqui delira. Só pode! Pensam que estou a mangar?  “Isto das cores tem muito que se lhe diga! Traumatizar os discentes utilizando a cor errada é que não! Seria imperdoável, seria uma grande falta de profissionalismo.”
Li esta pérola que, tal como tantas outras, bóiam na espuma deste mar de sargaços que é a blogosfera. Imagino-me aqui há uns tempos a pesquisar os efeitos negativos e positivos que uma determinada cor poderia ter em cada um dos meus cento e tal alunos, dependendo do seu perfil, da sua personalidade e da sua cultura/antecedentes por forma a  escolher a cor adequada à correção dos seus trabalhos!

Persiste ainda o preconceito, profundamente enraizado na voz corrente que escrever a vermelho é falta de educação, ou o mesmo que mandar à merda o destinatário do texto. Enfim!
Em suma: muita crueldade junta para as pobres crianças indefesas!
Uma vez, numa aula de alemão, o meu professor desabafou: “Aqui há uns anos, quem sofria um ataque de meningite ou morria, ou ficava doido. Eu sofri um ataque."
Também eu sobrevivi, pelos vistos cheiinha de sequelas e traumatizadinha de todo,  às numerosas cópias de caligrafia, também sobrevivi às correções a vermelho, também sobrevivi às seissss  reguadas ( régua redonda, tipo colher de pau, espessa e com os clássicos cinco furos para arejar!)! Confesso, agora, que merecia um castigo, saímos, três gaiatas, para o exterior do colégio à beira da estrada nacional 1, a única na altura e com todo o movimento norte/sul/norte, cada uma montada na sua bicicleta, ao longo de 7 km….Pimbas! Reguadas em barda. Chorei que nem uma desalmada porque nunca tinha levado reguadas e até era menina de quadro de honra...
Não havia S.O.S criança e os pais ainda não tinham aqueles chapéus enormes que agora usam para cobrir os seus rebentos, não vá alguma caganeta de cabra cair-lhes em cima, ou ainda buldozers que muitas famílias sub 50 têm para desobstruir os caminhos luminosos das crianças rumo ao sucesso e ao-direito-irrevogável-e-desinconseguido-de-ter-direito-a- tudo-o-que-eu-não-tive.

Não defendo ou apoio o tipo agressivo de castigo de outrora. Não. Apercebo-me de que, e acho que a maioria de nós, a começar na família, cadinho onde tudo tem origem, e a continuar na escola e na sociedade em geral, se misturam os direitos da criança com superproteções de muitos pais e de agentes em geral.
Qualquer manual da vida nos ensina que o excesso de proteção cria insegurança nos jovens, não lhes dando defesas para enfrentarem os obstáculos da vida, isto é, não os prepara para os possíveis fracassos.
Não será essa proteção excessiva, diria, por vezes, até doentia, que está na génese do  aumento de casos de crianças hiperativas? Onde estará essa ténue fronteira entre a hiperatividade e a falta de educação?

Já em 580 a.C, Pitágoras escreveu: “Educai as crianças para que não seja necessário punir os homens”.


2 comentários:

  1. Hoje em dia acrescentaria: Educai as crianças, para que quando elas chegarem a adultos não digam mal dos velhos.

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  2. É isso, Carlos. Em qualquer notícia de jornal, as pessoas a partir dos 60 anos deixam de ser tratadas por homem ou mulher, senhor ou senhora, para ser identificadas por sexagenário ou por idoso! Com a reforma até aos 67 anos é de notar a incongruência geracional, sim, porque acho que estas discriminações por idade serão eventualmente feitas por jovens jornalistas. Igualmente, em alguns blogs é explícito o achincalhar das pessoas mais velhas. A perda de valores é assustadora.

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