30.11.13

Não julgues

«Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste porventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues: olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo… É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.
Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser.»

In O Tempo esse grande escultor, Marguerite Yourcenar


                                             Hilary Faye (do Iz not)

29.11.13

Dos Novos Programas de Português do Ensino Secundário

Lido todo o documento, ressalvo aspectos positivos e negativos.

Positivos:

  1. a recentralização do texto literário, pela sua importância no desenvolvimento da leitura, da escrita e dos naturais mecanismos de reflexão e argumentação. É da relação íntima com textos de natureza literária que se elevam os espíritos. 
  1. a reinserção da poesia trovadoresca no programa do 10º. ano. Nunca percebi, e acho que a larga maioria dos docentes de Português, a amputação feita aqui há anos à história da nossa literatura. Até parecia que só a partir dos séculos XV-XVI passámos a ter produção literária.    
3. a reinserção da poesia árcade cuja ausência dos programas anteriores    constituía uma grave lacuna na abordagem diacrónica da nossa literatura. É importante o papel dos árcades, pelo seu carácter inovador, num período que antecede o surgimento do romantismo português.

Negativos:

  1. retirar Os Lusíadas dos conteúdos programáticos do 12º ano e repô-los nos do 10º ano. Da minha experiência, e porque leccionei esta obra quer no 10ºano, quer no 12ºano, considero este retrocesso negativo por duas razões: a). Ainda que a abordagem seja diferente, os alunos estudam Os Lusíadas no 9º ano, voltar a esta obra passados poucos meses causa-lhes um certo cansaço; b). “Imaginário épico; sublimidade do canto; mitificação do herói; reflexões do poeta” são aspectos da obra facilmente perceptíveis por alunos mais maduros e quando articulados com a Mensagem, de Fernando Pessoa, constituem um conhecimento mais alargado destas duas “epopeias”: uma que canta o passado heróico, resultante de actos físicos, concretos; e outra que “busca de uma Índia nova(…)em naus que serão constituídas daquilo que os sonhos são feitos” - da essência lusitana. Considero um erro separar estas duas obras no 12º ano porque propiciavam grandes momentos de discussão e reflexão sobre a realidade do nosso país e a sua projeção no futuro.
  1. “Lista” de poemas a abordar: retira ao professor a capacidade de seleção de textos, menoriza a sua atuação consoante o perfil da turma. Temo entrever aqui uma vontade de levar os alunos a macaquear: todos a repetir o mesmo sobre as mesmas coisas. A continuar, espero não voltarmos ao manual único, de má memória. Pessoalmente até defendo que não haja adoção de manual de português no ensino secundário. Sem capacidade crítica, os docentes ficam à mercê das grandes editoras e de certas mentes deslumbradas das Escolas Superiores  de Educação muito viradas para as pedagogias em “pack”.
  1. não se percebe bem a razão que levou à escolha do texto dramático para o 12º ano ( José Régio, Três Máscaras - Fantasia Dramática), sem alternativa, quando a mesma se verifica a nível do Conto e do Romance.
  1. programas demasiado extensos que impossibilitam desenvolver várias competências que precisam de prática. Se imaginarmos turmas de 30, ou mais alunos, vamos recuar umas décadas e voltaremos ao professor “omnipresente” e “expositivo” que toca o bombo, deita os foguetes e ainda vai a correr a apanhar as canas. Não haverá grande espaço de interação. E muito menos continuar a fazer o que havia de positivo: o ensino individualizado, isto é, tentar acompanhar o ritmo individual do aluno no espaço-aula.Lecionar decentemente a “Educação Literária” (expressão de natureza discutível e duvidosa!) do 12ºano é como tentar meter o Rossio na rua da Bestega.
5. Não haverá grande possibilidade para desenvolver a leitura, a oralidade (reflexão/argumentação) e a produção escrita que são competências  transversais a todas as disciplinas e, não menos importante, essenciais para toda a vida. As boas intenções teóricas atomizam completamente as práticas.


Concluindo: Os Novos Programas de português para o Ensino Secundário estão sob consulta pública até ao próximo dia 2 de Dezembro, isto é, não houve, desta vez e à imagem do que aconteceu com os Programas anteriores, consulta prévia  a grupos de professores do ensino secundário, seleccionados por zonas geográficas. Na época fiz parte do grupo que se reuniu na cidade de Aveiro e desses grupos, espalhados pelo país, houve contributos positivos. Lamento que o M.E. não tenha agora auscultado aqueles que efectivamente estão no terreno.
Dos autores destes novos programas, a Maria Regina Rocha, grande pedagoga ,que conheço pessoalmente, e com quem já trabalhei em ações de formação, é o único elemento com prática docente no Ensino Secundário. Os restantes, docentes do ensino superior e ainda que com muitas e importantes obras publicadas sobre literatura e língua portuguesas, estão bem longe da realidade das escolas do ensino não superior.

Ensinar a pensar é fundamental para a liberdade e libertação dos indivíduos e nas escolas, cadinhos essenciais, escasseia o espaço .

Sobre a educação e a reprodução de modelos sociais ( com ideologias implícitas ) que as classes dirigentes definem para a Sociedade, estão aqui bem delatadas neste texto fantástico da recém falecida Nobel 2007, Doris Lessing:


Formatados pela Sociedade


Idealmente, o que deveria ser dito a todas as crianças, repetidamente, ao longo da sua vida escolar, seria algo como isto: «Estás no processo de ser doutrinado. Nós ainda não fomos capazes de desenvolver um sistema de educação que não seja um processo de doutrinação. Lamentamos, mas é o melhor que podemos fazer. O que te estamos a ensinar é uma amálgama dos preconceitos actuais e das escolhas desta cultura em particular. Uma pequena olhada na História vai-te mostrar o quanto estes são temporários. Estás a ser ensinado por pessoas que conseguiram acomodar-se a um regime de pensamento que foi desenhado pelos seus antecessores. É um sistema de auto-perpetuação. Aqueles de vocês que forem mais robustos e individuais que os outros serão encorajados a sair e a encontrar formas de se educarem a si próprios – a educarem os seus próprios julgamentos. Aqueles que ficarem têm que se lembrar, sempre, e para sempre, que estão a ser moldados e modelados para se encaixarem nas necessidades estreitas e particulares desta sociedade». 

Doris Lessing, in 'The Golden Notebook'

22.11.13

E assim vamos

A mediocridade está a rebentar todos os diques e ficamos já sem paciência para criticar tanta falta de profissionalismo.
Este não é um qualquer erro, é a representação da própria ignorância e a negrito.



                                           Hoje, na revista apensa ao Jornal de Notícias

Afinal a natureza ainda se muda como soía




A natureza, felizmente, continua a surpreender-nos. Cor fantástica!

Bróculos colhidos na minha horta que é um local onde me revigoro.
Por dentro e por fora.




20.11.13

C'um catano!

...ora isto dá...dá...dá...é só fazerem  as contas! Fiquei confusa!
Ah... e em "modo" de  assaltada!

PENSÃO DE APOSENTAÇÃO


 ADSE









DUODÉCIMO DE SUBSÍDIO DE NATAL


ADSE-SUBSÍDIO DE NATAL








RETROATIVO 14.º MÊS


ADSE-14.º MÊS











IRS-CONTINENTE











IRS-SOBRETAXA











IRS-ACERTO-M.A.











IRS-CONTINENTE-14.º MÊS











IRS-ACERTO-14.º MÊS











IRS-SOBRETAXA-14.º MÊS











IRS-CONTINENTE-S. NATAL











IRS-SOBRETAXA-S. NATAL











CONTR. EXT. SOLIDARIEDADE











CONTR. EXT. SOLID.-14.º MÊS











CONTR. EXT. SOLID.-S. NATAL





19.11.13

Competências e incompetências


"É uma prova de Avaliação de Competências e de Conhecimentos, que o Ministério da Educação quer impor para os professores contratados e, futuramente, talvez, para todos os professores. Prova de competências? Prova de conhecimentos? Não há prova maior de competência do que aqueles que, durante anos, contribuíram para o sucesso dos alunos e a dinamização das escolas; assim como não há maior prova de incompetência, daqueles que, porventura, nunca estiveram no terreno e querem, agora, ajuizar sobre competências e conhecimentos dos que já os evidenciaram e provaram.
O ministro atual, que, porventura, saberá que ser ministro significa servir aqueles que representa, serve, nesta matéria, apenas interesses económico-partidários.
E agora vem com esta ideia, impensável para qualquer mente sensata: avaliar os professores contratados, aqueles que já foram avaliados, que contribuíram muito para o sucesso dos alunos e que foram/são uma mais-valia de uma escola jovem, ativa e promissora.
Uma prova de conhecimentos e competências? Não!
Nas escolas, para que não se contratem outros professores, há professores a lecionar disciplinas que não são da sua área específica. Com que competência?
Aqui, para o Sr. ministro, a competência já não é importante.
Que incongruência! Porquê, então, uma prova de competências na área específica para os professores contratados se, qualquer professor do quadro, que não tenha horário completo, pode lecionar outras disciplinas?
Os professores contratados têm de ser competentes, mas os do quadro, sejam ou não da área, a competência já não é importante. O critério de competências, que o Sr. ministro reclama, é, por isso, incongruente e inócuo.
Mais: os professores contratados, colocados até 31 de dezembro, se reprovarem na prova de competências e conhecimentos, podem concorrer no próximo ano letivo.
Os que não forem colocados nesse período, e reprovarem, já não podem concorrer.
Ou seja, um professor que concorreu a todos os horários, pode ter ficado colocado; outro, porque não previa esta maldade do Ministério (por exemplo, turmas com números de alunos impensáveis...) concorreu só a horários completos.
Os primeiros, com menos experiência, até ficam colocados e podem, no próximo ano, lecionar (são competentes); os outros, mais graduados, que não obtenham aprovação na prova, não podem, no próximo ano letivo, lecionar (são incompetentes). Onde está, então, o critério de competência?
Exponho, aqui, o meu caso, que é exemplo de muitos: sou licenciado pela Universidade de Lisboa. Fiz o estágio, com aulas assistidas, por uma professora efetiva da escola e por uma professora catedrática da Universidade de Lisboa e obtive, no estágio, a classificado com dezoito valores.
Atualmente, com quinze anos de serviço, fui avaliado, com aulas assistidas, em todos os anos desde que a avaliação se tornou obrigatória, com a classificação de Muito Bom.
E, agora, uma prova para me avaliar? Avaliar o quê? Ninguém sabe.
É, com certeza, uma prova para eliminar e para obrigar a pagar 20 euros, nesta e mais 15 euros na(s) prova(s) específica(s). Uma prova que pretende avaliar (não se sabe o quê) a quem já foi devidamente avaliado.
Para quem vivenciou ou tem presente outros tempos, antes do 25 de Abril, isto traz à memória um quadro de deslealdade, ditadura-pura, que só é pensável numa lógica de que tudo é possível (quero, posso e mando).
Os direitos das pessoas e a racionalidade, que esperem! Que triste quadro, este.
Se, quem manda, obriga a uma prova assim, então que essa prova seja feita por todos: professores, ministros, secretários de Estado e deputados.
A sociedade ficará, dessa forma, esclarecida das competências dos seus representantes.
E nós, professores, podemos ficar descansados, porque, se assim for, esta prova, surrealista, não irá reprovar ninguém."
por Mário Almeida
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Por entre tanto ruído, seria bom que houvesse mais testemunhos como o acima apresentado e que é bastante esclarecedor. O Estado formou, o Estado orientou estágio, o Estado( dentro das escolas) avalia todos os anos ( os contratados, porque os do quadro são avaliados (eram!) de dois em dois anos. Que se repense o início da profissão, mas num momento da vida profissional de alguém que foi e tem  vindo a ser avaliado, a obrigatoriedade de fazer  o exame é uma humilhação que não pode ser nunca confundida com medo!
Orientei estágios durante uns anos e faz-me uma grande confusão que um professor ( fosse médico, ou advogado ou engenheiro...)seja avaliado profissionalmente através de uma prova escrita. E ainda fico mais aparvalhada quando o bem qualificado ministro Crato diz: " nenhum professor qualificado tem de ter algum receio da prova". Sendo qualificado, menos se percebe a exigência da criatura.


Fogos regados a gasolina

Quando não  se tem cão,  caça-se com gato. E o tempo que não está de feição para atiçar fogos... Nanja por isso! Já o poeta bradava,...