29.8.13

Na pétala esmaecida um “amo-te”…

Resolvi meter mãos a uma tarefa já há muito programada e então pertinente porque íamos fazer obras no rés-do-chão da casa. Prateleiras, caixotes, dossiers e tantos outros registos académicos de quatro pessoas. Muita história acumulada juntamente com algum pó e uma ou outra mancha de bolor.
Andei dias mergulhada na minha vida de menina e moça: escola primária, colégio, universidade…cada livro me catapultava para uma época. A do já foi. Também visitei aquele passado mais recente de jovem mãe, ao folhear os livros e cadernos dos meus filhotes, onde, de formas tão diferentes, eles deixaram as suas marcas nos rabiscos esquecidos nas badanas. Também tomos e tomos de matemática aplicada, estruturas, resistência de materiais num emaranhado de engenharia civil mais tarde retomada pelo benjamim da família.
Esta experiência, tão comum no seio de qualquer família, vem a propósito da recolha de manuais escolares, levada a cabo pela sociedade civil, para ajudar crianças e jovens carenciados.
Ao folhear os meus manuais, de várias disciplinas, do 6º e 7º anos ( actual Ensino Secundário) revi algo que já estava esquecido: todos tinham sido comprados em 2ª mão. Recordo uma pequena livraria existente logo adiante no gaveto da Praça da República com a rua que sobe em direção a Celas (Coimbra). Da rua descíamos um ou dois degraus e entrávamos numa penumbra fresca ( talvez porque fosse quase sempre no início do ano escolar, fiquei com essa sensação de frescura gravada). Recordo os livros enfileirados no chão, por onde calhava…dizia o senhor que eram estudantes que vinham ali vender os livros, por motivos de força maior: entenda-se, conseguir guito para a estroinice. E às famílias diriam que tinham perdido os livros ou alguém lhos tinha roubado.
Não me recordo de alguma vez ter sentido na pele aqueles tempos difíceis de antes do 25/Abril, nem tão pouco recordo que os meus pais algumas vez me obrigassem a comprar livros em 2ª mão…e nesta espécie de nevoeiro, recordo que, aos 15/16 anos eu é que tratava de tudo o que dizia respeito à minha vida académica. Eu nem residia em Coimbra, só mais tarde aqui procurei alojamento.
Não sei que reviravolta se deu para anos mais tarde andarmos com os filhos, já adultos, à arreata, salvo seja,  a limpar todos os pedregulhos dos seus caminhos.
Á distância, a minha geração, a dos entalados (obedecíamos aos pais e depois passámos a obedecer aos filhos) mimou demasiado os seus filhos, no eterno propósito de lhes proporcionar aquilo que não tiveram. Faço parte daquela franja da sociedade que, não tendo pais ricos, lutou, se cultivou e, não menos importante, ganhou a consciência aguda, plena dos seus direitos e deveres de cidadãos. Adquiriu poder interventivo e crítico.  Foi com a minha geração  que a regra do “só os filhos de pais ricos iam para as universidades” começou a ser quebrada. Esta frase perversa sempre teve eco junto daqueles sobretudo que nunca almejam nada ou se quedam, manietados por desígnios exteriores, no seu canto  e do encolher de ombros daqueles que nem lhes interessa que o povo seja evoluído.
Hoje. Sinto uma angústia porque se avizinham tempos parecidos aos atrás descritos. Dificuldades económicas, estrangulamentos no ministério da Educação empurram para fora do comboio muitos jovens e até já se ouve: estudar para quê?...se não há empregos. Fico arrepiada, aos adultos compete demonstrar aos jovens que será sempre pela via da cultura e do conhecimento que qualquer indivíduo assegura a sua dignidade e a curto prazo, a dignidade do país. O mundo progride com mentes esclarecidas e eticamente bem formadas.
Da necessidade nasce muita coisa, por exemplo, os Bancos de Livros que me causam sentimentos opostos:
Por um lado, é o dom da partilha, da dádiva, da ajuda ao outro. E isto engrandece o ser humano. Sem qualquer dúvida.
Por outro, é o sentimento negativo da caridadezinha, do coitadinho do jovem e este boom enorme de montes de gente a abarrotar de boa vontade, quase a querer ser medalhada e reconhecida socialmente, quer nas TV’s quer nos jornais.
Não podemos aceitar este retrocesso na nossa sociedade, embora haja muita gente que defenda esta “política” do livro que vai de mão em mão.


Aqui, penso na criança que gosta de desenhar uma flor na badana do seu livro, uma bola, um passarito…escrever o seu nome nas pontas das folhas, na horizontal, a perpetuar-se… e não pode, porque o livro “já” não é dela.
Um dia, estas crianças, quando forem adultos, nunca poderão rever os rabiscos que a  imaginação desenhava nos seus livros, nem terão a surpresa cândida de encontrar, perdida entre as folhas, uma pétala esmaecida com um “amo-te” seguida de iniciais agora indecifráveis.



14.8.13

Por’aí…

Normalmente quando vou a uma Feira de Livros não levo em mente comprar o livro A, B ou C. Gosto de vasculhar e perder-me por entre as resmas de livros em busca de algo que me surpreenda. Ao invés, e noutras circunstâncias, quando entro numa livraria já sei de antemão, na maioria das vezes, o autor e obra que quero.  
Confesso que ultimamente, e por razões que agora e aqui não virão a propósito, tenho adquirido livros online que me são entregues em casa, no espaço de dois dias e sem encargos acrescidos. Sei que perco aquela sensação boa de andar na penumbra das livrarias a afagar os livros, mas ganho pela copiosa informação e crítica que obtenho com o gesto de um pequeno click, regaladinha na frescura do meu lar, ou no quentinho…consoante a estação do ano!

Na última Feira do Livro a que fui, a decorrer na Figueira da Foz, comprei uns livros bastante díspares entre si:

  • “A Arte de Armar” de José Jorge Letria, com um intróito contundente “Agite antes de usar”, bem ao meu gosto:  uma linguagem forte, telúrica, abrasiva, despida de requebros e palavras pestanudas.

“Não agrado, agrido. Não canto, conto. Não recomendo, faço. Não ameaço, dou: o muito e o pouco, a equívoca serenidade das palavras, o gume da frase dilacerando o sossego dos que ficam, a ignorância dos que dormem, o temor dos que recuam.”

  • “Uma Rapariga Simples” de Arthur Miller.
  • “O Ladrão de Arte”, a primeira obra de um jovem inglês, Noah Charney que aqui se espraia no mundo da História de Arte, sem descurar o mistério e os enigmas que estruturam a tessitura do crime.
  • “António Maria e a Paródia”, de Rafael Bordalo Pinheiro. São dois dos muitos jornais e publicações diversas da autoria deste mestre da caricatura, onde regista não só os acontecimentos da vida política, mas também o dia-a-dia da vida lisboeta. Uma grande maioria dos desenhos que abundam nesta obra são de uma actualidade espantosa! Comprova-se a tese: só as moscas é que vão mudando…
  • “As Mulheres que Infringiram Todas as Regras” de Susan B.Evans e Joan P. Avis. É um livro curioso. As autoras são professoras na Universidade de S.Francisco, U.S.A. e fizeram uma recolha exaustiva de testemunhos de mulheres nascidas entre 1945 e 1955 e que elas designam por “As Portadoras da Tocha”. Baseadas nos testemunhos e percursos de vida de muitas mulheres, as autoras são iconoclastas ao questionarem  as “regras antigas”. Por exemplo: “ Os homens fazem dinheiro, as mulheres fazem o café”, ou  “ Um homem define a identidade de uma mulher”, ainda “ Coloca sempre as necessidades e expectativas dos outros em primeiro lugar”.
“As mulheres desta geração foram pioneiras, simultaneamente  vulgares e o extraordinárias, com as decisões que tomaram, contribuindo, desta forma, para mudar a vida de todas as mulheres. Enfrentando riscos extremos, e sem que se pudessem socorrer de um qualquer modelo prévio, essas mulheres fizeram escolhas sem nenhum precedente e fizeram-nas no casamento, na maternidade, na educação e no trabalho. Ao infringirem todas as regras usuais, até então seguidas pelas meninas “ bem comportadas”, elas definiam novos modelos de vida para todas as mulheres adultas.”

Embora nascida no quase limite da data  desta geração, há situações relatadas no livro nas quais me revejo. Em pequenas coisas, pequenas conquistas numa sociedade castradora das mulheres e que aos olhos das mulheres de hoje, as "nossas filhas", podem parecer ridículas e inconcebíveis.
Desde o usar calças, abusar da minissaia, ir ao café apenas acompanhada por rapazes amigos, fumar…Tudo isto foi feito de confrontos, dor, revolta.
As mãos ficaram calejadas e, por vezes, a sangrar por querermos desbravar o futuro e libertarmo-nos da submissão ao homem. Pior, ao macho.
O mundo, quando definido a dois, deve ser calcorreado de mão dada, lado a lado e nunca um atrás do outro.

Atrás de um grande homem nunca estará nenhuma grande e verdadeira mulher, porque  esse homem nunca será grande, nem essa mulher será verdadeira.


2.8.13

Teorias da vida em saquinhos coloridos




É tão reconfortante não discutir a vida.
Andar de mão dada com ela e abrir a mente e corpo aos seus ensinamentos.
 Tudo o mais é pretensioso. Sobretudo quando leio por aí tantas teorias de pessoas sem chão.
É isso.

Apenas teorias em saquinhos brilhantes que cada um transforma no celofane das suas vidas fofinhas.



Fogos regados a gasolina

Quando não  se tem cão,  caça-se com gato. E o tempo que não está de feição para atiçar fogos... Nanja por isso! Já o poeta bradava,...