21.9.12

Breves são todos os instantes

Era dia de feira. Com o regresso dos emigrantes aos países do seu ganha-pão, era fácil circular por entre os “corredores” das tendas. O sol  da manhã aquecia e lambia os toldos.  Muitos feirantes já nem faziam o movimento de se abeirar de quem ia passando e olhando…Os olhares de uns e outros eram fotográfica e doentiamente  semelhantes.  A necessidade de venda e a necessidade de compra cruzavam-se num núcleo minúsculo que redundava num vazio.
Comentei em surdina: esta gente nem ganha, sequer, para pagar a taxa de ocupação à Câmara.
O sol e uma brisa suave continuavam imperturbáveis  perante os dramas humanos que se adivinhavam. Inquieta, olhei para o lado: árvores frondosas ofereciam um renque de sombra que se deitava, lasciva, ao longo de um muro. Sereno e de olhar doce, estava aí sentado um casal. Encarquilhados pela vida e sóis, deduzi que andariam na casa dos oitenta anos. Eram a imagem viva da dignidade, dos fiéis depositários de uma tradição rural que vive, siamesa, com valores profundos e genuínos agora esmaecidos e até tripudiados por uma sociedade que deixou de olhar para trás. E para o interior.
Ele, vestido de calças e casaco de fazenda, camisa sem gravata mas abotoada até ao pescoço, botas antigas mas bem brunidas. Numa mão segurava uma saquita de plástico fechada com um nó. Ela, de cara miúda, lenço na cabeça e atado de forma elegante e  displicente  sobre o pescoço, saia e blusa sóbrias, segurava numa mão um pequeno e níveo lenço de tecido…A outra mão dele e dela seguravam-se uma à outra numa naturalidade e cumplicidade tais que fiquei com um nó na garganta.
Sinto que estou viva num mundo que ainda se vai impondo com estas imagens de ternura que nos põem a descoberto os forros da vida.

17.9.12

Avulso

1.       Este ano tenho comido figos pingo-de-mel à fartazana! O estio deste Setembro enlourece-os  e adocica-os ainda mais…Apanhá-los da figueira,  dar uma dentadinha na ponta a escorrer mel, abri-los e, consoante a textura, morder o resto e deitar fora o píncaro! Há gestos, gostos e aromas que não têm preço.

2.       Segundo as TV’s, os lisboetas pareciam hoje baratas tontas  na rotunda, ou melhor, nas rotundas do Marquês. E por que razão? Muito simples. Falta de conhecimento e de treino o que é absolutamente compreensível. Seria bom que esta experiência servisse para que alguns deles também “compreendessem” a confusão de alguns forasteiros que, nas calmas e como muita atenção, tentam conduzir em avenidas com uma faixa exclusiva para transportes públicos e têm de, a qualquer momento,  virar à direita sem noção do “onde” e do “quando”. Aconteceu-me. O que me vale é que para além de ser uma condutora experiente e muito decidida, tenho uma outra faceta: sou irónica até roçar o sardónico. O que eu gozo! Sem nunca descer dos meus stilettos.

3.       Qvosque tandem abvtere, Catilina, patientia nostra? – berrava Cícero, digo eu. Sim. Até quando? Que alguns gajos e gajas, que nisto, infelizmente,  a igualdade do género já vem do berço, continuem a dizer: tem morto, tem limpo, tem empregue, tem aceite, nada “àver”, houveram pessoas, vão haver excepções, um “obrigado/a/os/as” (??!!) consoante o receptor e mandando para as urtigas o sexo do emissor( calma, nada de confusões com a Crawford!) já nem um esgarzinho de raiva e impotência me arranca, mas ouvir uma Judite de Sousa( o que se passa com a senhora cuja dicção está estranhíssima? Colocou “cremalheira” dentária? Eheheheh…) dizer:”…estas medidas vão de encontro às reivindicações blá, blá…” Ó filha,  vá a menina de encontro a uma porta e veja se não parte o nariz! Em contrapartida, se vir ao longe o seu mais que tudo quase juraria que irá, a toda a brida, a correr ao encontro dele, porque se fosse de encontro a ele, corriam o risco de ambos se estatelarem no chão ficando numa posição pouco consentânea com a vossa idade e estatuto social. Ele há coisas que a sociedade cobra mais a uns de que a outros. Irra!
     

4.       Sei que ninguém me perguntou pela simples razão de que se estão a marimbar para o que eu acho! Mas eu digo. Sou de esquerda, ou o que quer que isso signifique hodiernamente. Desde os tempos da fac fui rodando “bagarinho” da UDP até ao PS. Desempenhei funções políticas, como independente, mas nos projectos do PS. Faz tempo que larguei o espartilho e as anquinhas, só não queimei soutiens porque na minha idade anda tudo a começar a cair de dia para dia…Ai! Sinto-me uma doida no meio da ponte, mas uma coisa eu sei: o governo que “rebalanceie” ( o Gaspar até parece o nosso Mia Couto das Finanças!), que jogue à macaca, que o Pedro troque os passos, que reconsidere, eu sei lá…mas que segure firme o leme da barcaça. Ou seja, não defendo a queda deste governo porque, tal como dizia a minha avó, de quem recordo expressões giríssimas, senão saímos da porra e metemo-nos no catano! Como  quem manda é a troika e como todos sabemos que a política governativa, por força dos partidos “alternadeiros”, macheou ( roda em falso, sem avanços), pergunto:  valerá a pena fazer novas eleições e, ainda por cima, espoletarmos a sanha dos senhores dos euros?

5.       Acho que vou mais uns dias até à praia, agora que já não cheira a suor…passear, comer, dormir, ler…mereço. Se não for, farei o mesmo aqui nesta Beira, vestida de floresta  espelhada em lençol de água,  que está no sopé da Alta a namorar a Litoral.  Sábado irei remoçar uns trinta anos: vou vindimar! A Bairrada e o leitão esperam por mim.







16.9.12

E porque é domingo...

                                                                             iz

15.9.12

Crianças

Há quem considere que querer ser mãe, pai, avó, avô...é uma forma egoista de se perpetuar, sobretudo quando se põe de parte o instinto natural da reprodução da espécie.
Quando nasce uma criança é vermos os elementos da família a atropelarem-se  numa busca frenética de traços de cada um deles. Sabemos que são gestos naturais e que, algumas vezes, geram despiques saudáveis de argumentação.

Pessoalmente, e neste momento, nem a perpetuação, nem a reprodução me movem. Apenas e só uma vontade, diria até, uma necessidade, da presença de uma criança na família.
Uma criança amolece os corações e renova as cumplicidades familiares. Até as festas e comemorações familiares ganham outro ritmo ao som dos risos e choros de uma criança.
A criança mais nova da família tem 29 anos...

Sem egoísmo...Quero ser avó!

                                                                               iz

13.9.12

Reforma versus ordenado

Vejamos: um cidadão trabalha, vamos supor, 37 anos. Ao longo destes anos, desconta 11% do seu ordenado base, isto é, ilíquido, por 14 vezes num ano, para a segurança social. O Estado ficou com esse dinheiro para mais tarde lho devolver. Em forma de reforma.

Agora o mesmo Estado abotoa-se com o dinheiro e o reformado é equiparado ao trabalhador no activo  no que respeita aos cortes nos "ordenados". Com duas ligeiríssimas diferenças: o reformado não recebe "ordenado" e a reforma a que tem direito  foi sendo depositada e está ( pois...tá bem!) inteirinha nas mãos do estado.

Expliquem-me, como se eu tivesse dez anos e fosse loirinha que nem um anjo papudo: o corte nas reformas será constitucional?!

Isto tem um nome: ROUBO.

7.9.12

Até já, Casablanca…

Semana louca de boa.
Domingo e segunda feira…Lisboa. O casario, os monumentos, o Tejo e a simbiose daquela luz branca-azul que nos mergulha em letargia.

Terça, quarta e quinta feiras…Porto. Matosinhos e, logo abaixo do Castelo do Queijo, as esplanadas das praias Homem do Leme, do Molhe, de Gondarém…sol faiscante em finais de tarde ao som de música cubana e espargidas por caipirinhas…O corpo amolece e a alma, se é que existe, pisga-se para além de tudo.



Hoje…ao fim da tarde, a caminho de Marrocos.  
Segundo li algures, o clássico filme Casablanca, que eternizou na tela o carismático par romântico Ingrid Bergman e Humphrey Bogart,  não tem nenhuma cena que tivesse sido gravada no célebre Café de Ricky.
No entanto, o imaginário abafa a realidade e nós gostamos que o  glamour permaneça indelével.
Sei é que aí chegada, vou imaginar aquela cena…

Até para a semana.


4.9.12

Ronaldo, amigo, ....

...o povo faminto está contigo.
A ganhar mais de 10 milhões de euros por ano ( eu nem faço a mais pálida ideia sobre quanto seja tanto dinheiro...pobre de mim!), Cristiano Ronaldo, por força de decisões do governo espanhol sobre políticas de fisco, vai passar a descontar cerca de dois milhões e tal no seu parco ordenado.
É pois naturalíssimo que o craque ande triste e emburrado com o seu clube! Isto não se faz, nem ao mais desempregado dos mortais!

Vou ali cortar os pulsos e já volto!


2.9.12

Prostituição Política

Definição:  dois gajos, líderes dos maiores partidos políticos portugueses, a palestrar no fecho das "Universidades de Verão" à mesmíssima hora em que, por mera coincidência, se inicia o serviço noticioso das televisões.

Esta merda, de tão expectável, é um atentado à paciência e inteligência de qualquer cidadão.



Ehehehehe ( atenção às pessoas sensíveis)




1.9.12

O quarto poder

O quarto poder é o primeiro a chegar e o último a sair. Significa isto que a comunicação social apresenta-nos assuntos em primeira mão, submetendo-os a diferentes filtros consoante os seus interesses e, na mesma linha,  termina-os.
O país já está como que encortiçado e mal reage face às notícias diárias, escritas e faladas, sobre despedimentos. Aos magotes. Não há nenhum português que não conheça a história infeliz de um amigo, ou conhecido,  desempregado.
Sabemos que os tempos são outros e estamos saturadinhos de ouvir que um emprego não é para toda a vida: quer na função, quer na localização. É, com uma certa agonia,  que olho os sorrisos dos donos destas verdades insofismáveis, o seu à vontade com que repetem isto nas televisões,  como se lhes desse gozo e eles estivessem incólumes à ameaça do nomadismo profissional.
Não há bom senso nestas “bocas”. As famílias não podem ser desmanteladas ao sabor de uns canalhas neoliberais/capitalistas, como se fosse natural um casal andar de casa às costas, isto é, cada um com a sua, e os filhos metidos nos alforges da sua vida nómada.
Até que surgiu  o Borges. Um “bocas”, encartado por este governo de direita,   que de sorriso melífluo no beiço arreganhado, lançou a bomba da concessão/privatização ( É a semântica, merda!) dos canais públicos de televisão e dos possíveis despedimentos.
É tudo mau. Muito mau. Mesmo. Além da perda do serviço público, mais pessoas desempregadas.
Ponto final.
Mas. É lermos/ouvirmos os mass media, em lamentos pungentes a delatar situações de pessoas com muitos anos de RTP a correrem o risco de perder os seus empregos e o que isso implica para todos nós: a malbaratação de mais valias incontornáveis.
Fico perplexa. Será que os quintais dos jornalistas, afins e periféricos, terão de ser mais viçosos do que os dos outros “nómadas”?

La Notte, Michelangelo Antonioni, 1961

Fogos regados a gasolina

Quando não  se tem cão,  caça-se com gato. E o tempo que não está de feição para atiçar fogos... Nanja por isso! Já o poeta bradava,...