15.1.19

Só tu, Álvaro, seu amoral...


E, de repente, toda a gente lê, de uma só penada, os 240 versos da Ode Triunfal de Álvaro de Campos e deslumbra-se.
As redes sociais, essas bacanas, contorcem-se em espasmos de uma cultura nunca lida. 

"Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!"

O mundo continua lindo e eu "amo você ".

29.11.18

Será...




Tenho para mim que o chamado politicamente correto não é mais do que a tentativa de sedimentar preconceitos.

10.11.18

Teorias de conspiração?

Serão mesmo?
Instalou-se-me a dúvida. Mas, a aceitar, tudo se torna mais claro e se encaixa. Até a "fatídica frase" do ministro da Defesa.

"A tentativa de envolver o Primeiro-ministro e o Presidente da República no “encobrimento” – pelas cumplicidades reveladas, até na comunicação social pública – sugere um esquema corrupto ao mais alto nível do Estado, certamente em altas patentes no Exército e oxalá outros ramos militares não se incluam. Extremamente lamentável que uns quantos coloquem em risco o prestígio das forças armadas."
Aqui


"Então, agora, o interesse e a importância da descoberta do que se passou - isto é, quem planeou, com que objectivos, quem executou, como e com que meios e resultados (?), já não interessa? Saber quem e como fez o "assalto" passou a secundário, substituído por se saber se os mais altos responsáveis do País souberam ou não que só se conseguiu recuperar o material com a colaboração de um informador?

Com a tentativa de envolvimento do próprio Presidente da República, os farsantes mostram que para eles não há limites!
Está tudo de pernas para o ar!"
Aqui

28.10.18

Macau re-sentido

O Macau que vi numa cobertura  televisiva é muito diferente daquele outro que conheci há umas décadas, quando lá estive durante um mês em serviço oficial.
Consegui identificar muitos espaços e edifícios. Apesar de haver agora soberbas construções, altos edifícios, ressaltou a traça peculiar do hotel Lisboa que continua com a mesma imponência, pintado da mesma cor...gostaria de espreitar o enorme hall para ver se o célebre candeeiro, um dos maiores do mundo, à época, ainda continua a iluminar aquele espaço fantástico. As ruínas da igreja de São Paulo, a  zona circundante de arquitetura bem portuguesa, o Leal Senado, o jardim chinês, não sei se agora com outro nome, onde escutei, pela primeira vez, o som mágico do Rão Kyao (onde anda ele?!) e o bulício das ruelas de pequenos comércios, pejadas de pessoas, sons, cores, cheiros...numa sinestesia inebriante!
Ver é sentir e quase juraria que senti o odor daquelas canjas de rua que tantas vezes comemos, em pequenas mesas corridas e servidas em taças de porcelana com colheres pintadas e de igual porcelana chinesa.
E onde estará agora a minha amiga Felícia de quem perdi o contacto?
Saudades de ti!

25.10.18

#elenão

«O advérbio "não" ganhou recentemente novas conotações quando se associou ao pronome ele no Brasil. Mostra-nos a realidade que a expressão "#Elenão, mais do que uma inovação lexical, sintática ou semântica, é uma intromissão do social na língua, pedindo ajuda para a verbalização de um grito urgente.»
Carla Marques

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Na verdade, #Elenão é muito mais do que uma simples (?) negação do pronome ele porque traz dentro de si uma pluralidade de negações: “não mais”, “não perturbe”, “não volte”, “não aqui”, “nãoconnosco”…
#Elenão, mais do que uma inovação lexical, sintática ou semântica, é uma intromissão do social na língua, pedindo ajuda para a verbalização de um grito urgente. Esta, com o seu poder e força, devolve à sociedade uma expressão que aponta o caminho do não, onde se (re)aprende a dizer não. É preciso que a sociedade interprete a resposta para que a magia do “deixar de ser” ou do “já não será mais” possa acontecer.
E é também por esta capacidade de promover envolvimento e consciência que a língua nos espanta todos os dias e é esta mesma língua que nos diz «No próximo domingo, vai, vai com as aves e leva miosótis


Artigo completo AQUI




22.10.18

Explicar não ofende


Vamos lá acabar com a decapitação dos verbos! Os desgraçados andam por ai, sem cabeça, aos tombos pelo meio das frases e não é coisa bonita de se ver/ler.

1. "Ao passar-mos à tua porta..."
2. "Fizes-te muito bem"
3. "Bebes-te o sumo todo"?
4. "Comes-te duas francezinhas?!"

Há aqui uma valente confusão entre o uso dos pronomes ( pronominalização verbal) e a desinência verbal ( morfemas indicativos do modo e do tempo, ou do número e da pessoa ), ou seja, os "mos" e os "te" separados barbaramente do corpo do verbo por um hífen idiota.

Simplificando, façamos o seguinte exercício :
1. "Ao mos passar à tua porta..."
2. "Te fizes muito bem."
3. "Te bebes o sumo todo?"
4. "Te comes duas francesinhas?!"

 As frases fazem sentido? Não!
Soam mal? Pessimamente!
Assim, em caso de dúvida e para evitar este erro tão feio, anteponham ao verbo o que usaram a seguir ao hífen e logo verificarão se a frase tem sentido.

A vida sem hífenes é bem mais risonha!
Feliz semana.




21.10.18

A dignidade, conceito flutuante

 Um ministro veio a terreiro dizer que não é prática das polícias portuguesas mostrar os rostos das pessoas que prendem, lamentando, por isso, a situação vivida há dias.
Três perigosos cadastrados, reincidentes em crimes ligados a assaltos muito violentos a pessoas idosas e outras, que são levados a tribunal sem algemas e "espantosamente" fogem! As suas fotos são publicadas.
São apanhados, pouco depois, e os jornais divulgam a foto, onde estão sentados no chão e algemados.
Não sei francamente se o ministro invocou a preservação da dignidade dos referidos meliantes, que todos nós tínhamos direito a reconhecer e por motivos óbvios. Sei apenas que criticou a atuação da polícia.
E sem querer fazer disto uma leitura política, por onde andava a dignidade quando, por entre foguetório, estrondo e a cobertura de uma televisão, assistimos à invasão em direto da Assembleia da República para prender o Paulo Pedroso, ou ainda, a prisão do José Sócrates à saída de um avião?
Entretanto, outras reações:

"Aquele órgão colegial manifestou "total repulsa por qualquer demonstração e/ou imagem que ponha em causa a dignidade da pessoa humana".

"O importante é determinar quem tirou as fotos, diz o Sindicato Unificado da Polícia que também partilhou, na sexta-feira, as fotografias da detenção dos três homens que tinham fugido do tribunal do Porto."

A responsabilização pela fuga parece ser assunto de somenos importância. Enfim.
Para a coisa terminar em beleza só falta o país ser, uma vez mais, criticado por não respeitar os direitos humanos.
Não defendo o vale tudo e de qualquer maneira e, sim, defendo que se preserve a dignidade e o bom nome da pessoa humana, quando o há, mas tenho imensa dificuldade em aceitar, porque não compreendo, uma sociedade bipolar, onde a dignidade parece depender duma roleta russa.


16.10.18

20% a 40% dos alimentos das cantinas(escolares) vão para o lixo

Há aspetos nesta notícia que me deixaram perplexa pela inexatidão, ou melhor, pelo seu parco desenvolvimento, que parece responsabilizar as escolas.
Fiz parte do conselho executivo de uma escola e uma das minhas tarefas foi gerir a cantina e bares da escola. Tínhamos a visita anual da nutricionista, em contexto escolar, que dava pequenas ações de formação ao pessoal da cozinha e que iam desde o tratamento da chegada dos produtos à escola até à confeção de refeições, e com áreas bem definidas do processo. Para além de haver diretrizes claras no que concerne à elaboração das ementas: equilíbrio nutricional e quantidades específicas de carne/peixe ou outros. Recebemos também a visita inopinada de equipas inspetivas.
Recordo que ao longo dos anos fui responsável, juntamente com a chefe da cozinha, pela escolha das ementas: alternância entre carne e peixe, sopas variadas, sobremesas de fruta, iogurte e doce.
Nos bares, consegui baixar o preço dos iogurtes e sumo natural de laranja e aumentar dos bolos e de outros. Acabei com as batatas fritas, panikes, etc. Apenas sandes e croissants simples. Passou a haver também peças de fruta e pela hora do almoço passou também a haver sopa que alunos, que se esqueciam de comprar senha, e muitos professores consumiam. Constatou-se que havia muitos jovens a aderir à sopa. Mais tarde, « ordens superiores dos senhores  de lá de longe» suspenderam por questões sanitárias! E a cozinha era na porta ao lado…
As senhoras da cozinha queixavam-se muitas vezes que muitos alunos recusavam a sopa que, diziam, não comiam em casa. Sendo, na altura, uma escola secundária, os alunos do 2º e 3º ciclos iam lá comer e era com estes, sobretudo, que as funcionárias mais se preocupavam. Cheguei a receber queixas de algumas mãezinhas a informar que as senhoras não tinham nada que «obrigar os filhos a comer a sopa, ou o que quer que fosse…»
Não culpem, pois, as escolas pelos desperdícios dos alimentos, culpem alguns pais que parecem estar-se nas tintas para a alimentação saudável dos seus filhos.
Verifiquei ainda, por várias vezes, a impotência e a revolta da chefe da cozinha quando me chamava para mostrar dezenas de costeletas, postas de bacalhau, etc, que não tinham sido consumidas e que  tinha de mandar para o lixo por ordens superiores, que não as nossas, do conselho executivo. Afinal qual a razão deste desperdício?
Na escola, os alunos não precisavam de andar com dinheiro no bolso para comprar nada, desde a borracha ao sumo. Penso que agora é o normal, mas na altura, era inédito e poucas escolas tinha este sistema. Carregavam o cartão, o 4 que lhes ditava a saída(verde) a seu bel-prazer da escola, ou a sua proibição(vermelho). Havia pais que além do cartão de livre-trânsito, davam dinheiro aos filhos, estes compravam a senha de almoço, mas depois em grupo decidiam sair da escola e ir comer lambarices aos cafés da zona. E a cantina chegava a ficar com 20 a 40 refeições diárias por consumir. E, mais grave ainda, alunos com subsídio escolar. A escola pouco podia fazer para além de mandar para o lixo toda aquela comida, porque nem autonomia tinha para ameaçar com a suspensão do subsídio caso aquela situação continuasse.
Não sei o que se passa atualmente sobre estes aspetos, sei que a escola continua, e bem, ainda a apostar em refeições de qualidade e sob a responsabilidade da gestão da escola.


Apelo a que se eduquem os pais no que respeita aos hábitos alimentares em suas casas. À escola compete educar para a alimentação saudável, mas não ensinar/obrigar as criancinhas a comer a sopa, ou a fruta. E, por experiência, sei que há pais que rejeitam por acharem que é interferência demasiada.

8.10.18

Amor com hífen

«As redes sociais são ricas em temas amorosos, e não raro profusamente ilustrados.»

Num dia em que percorria as artérias mais frequentadas de uma rede social, deparei-me com a singela declaração:
 Amote Amote Amote
Para sempre!
Sensibiliza a declaração pública do sentimento mais nobre, mas envergonha a forma. A falta de um simples hífen leva os sons do amor a rimar com “pote” ou com “serrote”. Até parece “trote”! Faz falta o pequeno hífen à harmonia do amor.
Mais à frente, ao virar de uma esquina virtual, estranhei a gratulação endereçada a uma tal Joana:
 Benvinda
Só tu és o meu amor!
A afirmação leva-me a imaginar uma traição ao estilo de Flaubert: “Benvinda”, com maiúscula e tudo, é nome próprio, e de mulher! Como interpretará a tal Joana a afirmação? Só ela o saberá… E saberá para dar pelo perigoso jogo de palavras? Um hífen teria evitado todos os equívocos. Muito mais romântico teria sido:
 Bem-vinda
Só tu és o meu coração!
Outras portas se abririam! E as da minha imaginação fechar-se-iam por falta de estímulo, é certo!
As redes sociais são ricas em temas amorosos, e não raro profusamente ilustrados. Eis senão quando me deparei com uma fotografia romântica de um casal apaixonado assim legendada:
 Da-mos
Os nossos corações 
 Imediatamente, o meu cérebro coloca um acento em «dá» e vê uma declaração de ganância proferida por alguém que iludiu a companheira e agora quer ficar com tudo, a lembrar aquele marinheiro lusíada, cuja mulher, na praia de lágrimas banhada, denunciava: «Esse coração que levas é meu e não teu!» Pelo menos esse não foi movido pela avidez (digo eu que não me identifico com o Velho do Restelo)!
Duvidaríamos bem menos da condição humana se a legenda tivesse sido:
 Damos
Os nossos corações 
 Mas isso já seria platonismo em excesso para os hífenes do amor!

 N.A.: os casos aqui relatados são ficcionais e qualquer coincidência com a realidade é mera (e infeliz) coincidência.

(Carla Marques, autora e minha colega e amiga.)